Educação e politicas publicas - parte II
O
Cenário Global e as Políticas Públicas e Sociais
O
cenário global, tal como apresentamos, sugere diferentes e inúmeras análises,
reflexões e críticas. Uma das críticas enfatiza os desdobramentos do modelo de
ajuste estrutural para os países em desenvolvimento – a ampliação do apartheid
social, com a ampliação do fosso entre os países; a imposição de processos de
modernização aos países em desenvolvimento, através da absorção de novas
tecnologias, sob o risco de reforçarem sua exclusão; a definição de uma agenda
educacional que privilegie o suprimento das necessidades identificadas como
barreiras à maior produtividade e qualidade do produto. Esta análise destaca o
fortalecimento do indivíduo como ator central da história e em relação ao
coletivo, e o privilégio concedido à iniciativa privada, à livre concorrência e
às leis do mercado.
Cabe
ao Estado, nesse processo de readequação das diferentes forças, desempenhar
ações de caráter compensatório. Junto com a definição de novas relações entre o
público e o privado, as medidas compensatórias cristalizam-se em uma nova
estrutura de relações sociais. Como parte da política de compensação dos
ajustes econômicos implementados foram criados os "fundos" destinados
ao financiamento de programas sociais, visando garantir uma estrutura
institucional que propiciasse a superação de problemas históricos da política
social da América Latina. Acreditava-se que os problemas podiam ser
solucionados com uma coordenação intersetorial, com a convergência orçamentária
e com um sistema de informações e avaliações dos diferentes programas. Neste
sentido, buscou-se
/…/
abandonar a configuração estatal-monopólica na formulação e na administração
dos serviços sociais, por meio de mecanismos flexíveis de dotação de recursos,
particularmente os resultantes em bem-estar, que assegurassem uma
descentralização efetiva dos serviços. Pensava-se em um modelo ‘pluralista’ de
política social /…/ que reconhecesse as vantagens pluralistas do setor privado,
o setor não-governamental e outros que exercem efeito sobre o bem-estar, como a
família, organizados em um sistema com capacidade de resolver os problemas
concretos da população.
Em
sua prática, no entanto, os fundos acabaram se portando diferentemente do
prescrito, constituindo-se em um mecanismo paralelo à administração pública dos
setores sociais. Segundo a avaliação de Bustelo, enquanto os gastos com os
setores sociais foram diminuídos, aqueles previstos para os fundos, vinculados
diretamente ao poder executivo federal, passaram a contar com mais verbas e,
sobretudo, com maior agilidade em seu uso. Além do que os fundos são também
mecanismos eficazes para captar solidariedade externa para o pagamento da
dívida com os bancos privados internacionais.
O
conjunto desses aspectos, na prática, reforça a vulnerabilidade dos países em
desenvolvimento em relação à definição de suas políticas públicas. Para os
países da América Latina, e para o Brasil em particular, contrariando os ganhos
advindos da Constituição de 1988, ao longo dos anos 90 verifica-se que
/…/
o desmonte da já precária estrutura de proteção social ocorre concomitantemente
aos efeitos dos programas de ajuste macroeconômico. A receita neoliberal
aplicada desigualmente no cenário latino-americano tem os mesmos referenciais
de ação: privatização, descentralização, localização e programas sociais de
emergência, sendo que o modelo chileno é apresentado como paradigma a ser
seguido em virtude de seu ‘êxito’ na reformulação do papel do Estado.
Nesta
mesma direção, podemos destacar que o cenário pós-Constituição de 1988 vem
sendo fortemente marcado pela presença de políticas sociais sem direitos
sociais, como bem identifica Vieira. Concordamos com a avaliação do referido
autor ao mostrar que ao longo de sua história o país vem se defrontando com a
constante intervenção estatal no âmbito das políticas sociais. Ao mesmo tempo,
o Estado tem funcionado como salvaguarda dos detentores de capital, ainda que
em muitos momentos sua presença tenha sido repudiada, em nome dos interesses do
mercado. No quadro atual, de desemprego crescente e de privações ilimitadas, a
intervenção do Estado é condição essencial para garantir os direitos sociais
contidos na Carta de 88, buscando construir a segurança social no Brasil, e
"não o Estado do bem-estar social que o passado não concretizou
aqui".
Ao
mesmo tempo em que o debate sobre a presença estatal na economia e nas
políticas sociais ganha corpo, assiste-se a um intenso crescimento das ações
sociais propostas no âmbito da iniciativa privada.
A
Ampliação do Setor Privado no Campo das Políticas Sociais
O
debate sobre o novo caráter e perfil das políticas sociais vem tendo eco entre
os diferentes segmentos da sociedade civil e da iniciativa privada. Cresce a
importância e atenção dadas às organizações não-governamentais, interlocutoras
privilegiadas para o diálogo entre as instâncias do governo e os interesses da
sociedade, propondo uma reflexão política de fundo sobre o público e o privado.
Cresce a participação da iniciativa privada no campo das políticas sociais,
sobretudo aquelas ligadas à educação e ao meio ambiente. Na sua prática, o crescimento
das iniciativas sociais a partir do setor privado e do capital, recupera e
repagina as idéias de assistência e filantropia. São ações que se difundem em
conjunto com as críticas ao esgarçamento das políticas sociais públicas.
Dentre
as ações e práticas gestadas no âmbito da iniciativa privada, destaca-se o
desenvolvimento da noção de responsabilidade social difundida por empresários
considerados progressistas. Importado dos Estados Unidos, o conceito de
responsabilidade social diz respeito aos valores éticos, às pessoas, à
comunidade e ao meio ambiente, aspectos considerados estratégicos para o
sucesso das empresas no cenário contemporâneo. A idéia de responsabilidade
social vincula-se, ainda, ao crescimento do "terceiro setor", da organização
(espontânea) da sociedade civil para o trato de temas públicos. Segundo essa
perspectiva não cabe às empresas apenas
/…/
discutir a relevância da participação do mercado, do mundo empresarial no
enfrentamento dos desafios que encaramos todos nesta virada de século. Os
problemas de iniquidade na distribuição da renda, do desemprego, da fome, da
violência, entre outros, são muito complexos e não nos deixam outra alternativa
que a do engajamento de todos os setores da sociedade no seu combate. /…/
Ética, visão de mundo, transparência, responsabilidade para com o ambiente e a
comunidade passam a ser, a cada dia, atributos mais relevantes para a conquista
da lealdade de consumidores e conseqüente rentabilidade nos negócios. Na
atração de recursos humanos diferenciados, fator crítico para a competitividade
das empresas, o fenômeno se repete. Trabalhadores talentosos, criativos e
envolvidos, capazes de criar valor para consumidores e acionistas, exigem outro
tipo de ambiente de trabalho: aberto, participativo, transparente, em que o
respeito às pessoas, ao indivíduo e suas relações esteja presente. Na qual a
recompensa material é apenas um dos dados do jogo.
Nos
últimos anos essas idéias vêm se materializando através de iniciativas privadas
no campo da educação básica pública. As propostas de "adoção" de
escolas públicas, uma união entre as empresas e as escolas, já contam com
muitos adeptos e reiteram o pressuposto neoliberal de que o Estado seria
inoperante na gestão escolar. É também neste contexto que se insere a
determinação de um número crescente de empresas de assumir para si a tarefa de
promover a escolarização de seus trabalhadores, levando a escola para o chão de
fábrica. Esse movimento demonstra que a educação contínua e interna ao mundo do
trabalho não é mais uma atividade episódica no cotidiano das empresas, mas, e
sobretudo, é parte integrante para a elaboração de um planejamento
estratégico". Em síntese, podemos dizer que em um contexto marcado por
/…/
novas relações entre o público e o privado e de desregulamentações importantes,
cabem muitas dúvidas sobre as energias e vitalidade social do setor privado
para assumir a liderança de um novo estilo de crescimento /…/. Na verdade, é
este setor que deve realizar os investimentos produtivos necessários, aumentando
a produtividade do capital, realizando crescente incorporação tecnológica e
substituindo o consumo extravagante. A experiência regional mostra um ator
econômico muito diferente em transformação: empresários acostumados a operar em
mercados protegidos e/ou altamente subsidiados, buscando a rentabilidade
imediata e a recuperação do investimento a curto prazo. Converteram-se eles ao
novo credo do risco, do investimento produtivo a médio prazo, da maior
competitividade baseada em crescente produtividade?
Para
além das questões sugeridas é preciso destacar que começa a ganhar espaço neste
final de década, um conjunto de indagações formuladas por técnicos
responsáveis, em grande medida, pelo receituário internacional proposto aos
países emergentes, colocando em "xeque" muitas das propostas
neoliberais. O recente discurso que vem sendo divulgado por dirigentes do Banco
Mundial é sugestivo e permite algumas considerações.
Uma
"Crítica" que vem de dentro e o Desenho do "Pós-Consenso".
Ainda
que seja extremamente prematuro elaborar qualquer avaliação, começa a emergir
um discurso que sugere a reconfiguração das proposições originadas dos
organismos e agências internacionais. Ocorre que neste final de década, um
grande número de países, particularmente os "emergentes" e aqueles
que foram objeto de ajustes estruturais propostos pelos organismos financeiros
internacionais, estão vivenciando um quadro de profunda crise financeira e, o
pior, sem ter solucionado ou minimizado os problemas sociais e a pobreza, são países
que sofrem as implicações do crescente desemprego.
Esse
é um dos fatores que está orientando a crítica ao conjunto de princípios
anteriormente firmados, colocando em "xeque" os preceitos até então
defendidos pelos organismos internacionais. Curiosamente, parte da crítica ao
modelo neoliberal foi gestada dentro de instituições que conceberam e impuseram
tal modelo, dentre elas o Banco Mundial. O Consenso de Washington, sinônimo das
medidas neoliberais voltadas para a reforma e a estabilização das economias
"emergentes", principalmente da América Latina, estaria em crise,
assim como grande parte dos países que se dispuseram a executar as tarefas que
lhes foram passadas. Com a suposta preocupação de dar respostas às questões
vitais para o desenvolvimento dos países e redefinir o percurso, técnicos do
Banco Mundial percorrem o mundo apresentando um "novo ideário" que,
crítico àquele difundido nos anos 80, parece estabelecer a noção de um
"pós-consenso de Washington".
Três
pontos orientam esse recente debate: o sucesso da China, a reviravolta
tecnológica dos EUA e o colapso financeiro do Sudeste asiático. Há uma
cobrança, interna ao próprio Banco Mundial, para que se formulem propostas que
reconheçam o papel do Estado e os riscos das privatizações, bem como para que
os países adotem uma atitude mais cautelosa no campo da liberalização dos
fluxos de capital. A despeito da crise financeira instaurada entre os países do
Sudeste asiático, nos países que seguiram o receituário dos organismos
financeiros internacionais chama-se a atenção para a importância das lições do
seu período de sucesso. Segundo a avaliação do Banco Mundial, sem dúvida
questionável, a superação da miséria, a incorporação do progresso tecnológico e
a criação de instituições de promoção do desenvolvimento em vários países da
Ásia continuariam, apesar da crise, entre algumas das mais significativas
conquistas do século XX.
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