Educação e politicas publicas - parte III
Para
a formulação de um "novo consenso" destaca-se a inclusão de aspectos
relativos ao desenvolvimento humano, à educação, à tecnologia e ao meio
ambiente. Solicita-se a ampliação das medidas econômicas que objetivem o
desenvolvimento sustentável, igualitário e democrático. Há, ainda, uma
relativização da luta contra a inflação, ponto que toca de perto os países da
América Latina. Competitividade, eqüidade, democracia, alternativas ao
crescimento, desenvolvimento humano, são algumas das palavras-chave que
permanecem presentes e permitem questionar o "novo" que se sugere,
uma vez que a hegemonia dos países desenvolvidos não está afetada. Em síntese,
há um discurso que busca recuperar a importância de investimentos em políticas
sociais, reiterando e reforçando os preceitos políticos definidos como
"Terceira Via".
Ao
mesmo tempo em que os organismos internacionais recolocam a importância do
Estado na proposição e manutenção de políticas públicas, as práticas cotidianas
nos permitem inferir que, na verdade, estamos diante de uma roupagem
"nova" para o tratamento de "velhas" questões. É preciso
não esquecer que os países em desenvolvimento, para melhorar, quer a eqüidade
quer a igualdade, necessitam, além de crescimento econômico, de
/…/
políticas sociais que atuem sobre a distribuição da renda e da riqueza. Em
outras palavras, são necessárias políticas sociais, e não apenas políticas de
combate ou redução da pobreza; políticas que tenham uma preocupação com os
equilíbrios sociais e econômicos /…/.
Em
seu conjunto, o modelo de crescimento definido para os países em
desenvolvimento tem produzido impactos no campo da educação. No âmbito mais
geral, as diretrizes para a educação manifestam-se em diferentes tópicos da
política educacional vigente. Destacam-se a ênfase no ensino básico para
crianças, a descentralização, o financiamento, o modelo de gestão e o incentivo
à participação da iniciativa privada, o sistema de avaliação, dentre outros. No
tocante à educação de jovens e adultos, há um discurso que embora considere
essencial solucionar o problema, transfere para o âmbito da sociedade civil e
da iniciativa privada a tarefa de propor e implementar programas. Ademais, a
essa modalidade educativa confere-se o estatuto de política compensatória,
assistencial, mantendo-a à margem do sistema educacional como um todo. A
seguir, procuramos discutir o lugar da educação no debate a partir do ideário
dos diferentes organismos e agências internacionais sobre a definição das
políticas educacionais.
O
"Lugar" da educação no debate contemporâneo
Ao
longo da década de 90, a
educação tem ocupado um lugar de destaque nos debates. Redescobre-se a centralidade
da educação e a ela é conferido um lugar privilegiado nos processos de
reestruturação produtiva, no desenvolvimento econômico e para inserção de
grande parte da força de trabalho em uma sociedade permeada pelos códigos da
modernidade.
De
certo modo, há que se destacar, o processo de valorização da educação vem se
mostrando impregnado por uma concepção alicerçada nos pressupostos da economia.
Ou seja,
/…/
educar para a competitividade, educar para o mercado, educar para incorporar o
Brasil no contexto da globalização. Tal visão restrita acabou por deixar de
lado muitos dos valores que anteriormente vinham informando o fazer
educacional: educar para a cidadania, educar para a participação política,
educar para construir cultura, educar para a vida em geral.
Ao
mesmo tempo, não há como negar que estamos frente a um cenário marcado por
novas e maiores exigências no que se refere à qualificação da força de
trabalho. Há um consenso de que a solicitação de uma formação geral é demanda
dos novos processos produtivos e da base informacional que marca a sociedade
contemporânea. Parte significativa dos debates que ora se realizam entre os
diferentes segmentos da sociedade civil, e que em larga medida vêm se
materializando através de diferentes propostas e políticas educacionais
governamentais, articula-se em torno dos pressupostos amplamente divulgados
pelos organismos internacionais - Banco Mundial / BIRD, BID, CEPAL, ONU,
UNESCO/OREALC.
Diante
da significância atribuída às proposições emanadas desses organismos,
destacamos algumas idéias centrais sobre o tema da educação.
Os Organismos Internacionais e a Definição da
Agenda Educacional.
As
proposições originadas dos diferentes organismos e agências internacionais têm
como fonte inspiradora o modelo neoliberal e, no âmbito mais geral, estão
pautadas por três mecanismos: o caráter indutor; a ênfase em um comportamento
mimético, quando se sugere que modelos considerados bem sucedidos sejam
repetidos; a busca de respaldo na comunidade acadêmica, produtora de
conhecimento. Estes são mecanismos que permeiam as proposições que têm como
eixo a educação básica, considerada central para a inserção dos países em
desenvolvimento no cenário global. Destacamos algumas das linhas mestras
presentes no "receituário" divulgado por essas instituições,
sobretudo nesta década.
O
Banco Mundial e sua proposta de educação
A
proposta do Banco Mundial para a educação está baseada na geração de capital
humano para o novo desenvolvimento, através de um modelo educativo destinado a
transmitir habilidades formais de alta flexibilidade, concentrando-se em
educação básica. Já em 1990, na sua proposta original The Dividends of Learning
(Dividendos da Aprendizagem), o Banco Mundial, procurando justificar
economicamente sua política de educação, considerava, de um lado, os resultados
das pesquisas desenvolvidas com ênfase na escola e na aprendizagem e, assim,
priorizava a educação primária e o contexto educativo. De outro, o Banco
ressaltava que o investimento em educação poderia contribuir para satisfazer às
solicitações de trabalhadores mais flexíveis e adaptáveis, com capacidade de
aprender novas habilidades, ainda que os resultados até então observados a
partir da efetivação de projetos centralizados na educação básica não pudessem
ser claramente avaliados. Orientando-se pelos princípios de uma economia de
mercado para tratar a educação, os técnicos do Banco concluem que é melhor
investir na escola primária.
/…/
Para apoiar esta teoria utilizam-se estimativas – por meio de regressões
estatísticas históricas – relativas ao aumento da renda de uma pessoa
analfabeta (em cuja educação se investe determinada quantia), que seria
proporcionalmente maior que o aumento de salário de um profissional com
pós-graduação em cuja educação adicional fosse investido o mesmo montante. Por
esta razão, o investimento na educação primária traria mais vantagens sociais
do que na secundária e na superior, uma vez que, somando os maiores aumentos de
rendas pessoais se conseguiria um incremento maior da renda nacional por
unidade de valor adicional investida. Em análises deste tipo apóia-se a
hipótese de que a vantagem ‘social’ coincidiria com a vantagem dos setores mais
carentes.
É
importante notar que o conceito de educação básica difundido pelo Banco Mundial
está relacionado a oito anos de escola, os quais seriam capazes de proporcionar
às crianças a aquisição do conhecimento, as habilidades e as atitudes
essenciais para funcionar de maneira efetiva na sociedade. Assim, equipara-se o
educativo ao escolar e trata-se fundamentalmente com crianças. A educação
básica que se adquire em outras instâncias, como a família, a comunidade, o
trabalho, ficam fora das propostas, que também não contemplam os programas de
educação não-formal e de educação de adultos, o que expressa algumas das
fragilidades do "ideário" apresentado.
Reitera-se
a idéia de que a educação é elemento fundamental para a formação do
"capital humano", adequado ao novo cenário produtivo. É preciso
enfatizar, ainda, que em 1995, o Banco Mundial indicou a educação, sobretudo a
educação básica, como chave para o aumento sustentável de taxas de crescimento
econômico, para a superação das desigualdades e para a obtenção de um ambiente
político estável.
É
preciso ainda destacar que os pressupostos que têm orientado as ações do Banco
Mundial reiteram a estreita relação entre educação e desenvolvimento econômico
e, mais que isso, estão presentes na própria definição de proposições e
projetos educacionais gestados nos âmbitos federal e estaduais. São esses
projetos que habilitam os governos ao recebimento dos empréstimos. São esses
projetos que veiculam o ideário do Banco e interagem com as políticas
educacionais em curso.
Para
o caso brasileiro, não é demais lembrar a reforma educacional que vem sendo promovida
pelo Ministério da Educação.
/…/
Neste sentido, o caráter da reforma educacional está bastante afinado
com
a reforma do Estado promovida pela área econômica e com suas orientações. O
ministro vem mostrando bastante agilidade em cumprir os compromissos com o BIRD
e o BID, e facilidade em obter os recursos para seus projetos, o que comprova
as afinidades de orientações.
A
perspectiva da CEPAL para a educação
O
ideário da CEPAL, formulado por economistas, sociólogos, planejadores, dentre
outros, reforça o discurso dos demais organismos internacionais ao enfatizar
que "a transformação educativa passa a ser um fator fundamental tanto no
exercício da moderna cidadania como para alcançar altos níveis de
competitividade". Com o objetivo de integrar a América Latina ao panorama
econômico internacional há uma aposta na difusão de um padrão de
competitividade autêntica, em oposição à espúria que até então teria trazido
vantagens econômicas aos países. Para isso, enfatiza-se a
/.../
necessidade de elevar a competitividade através da incorporação do progresso
técnico para todos os âmbitos do processo produtivo de modo a não basear a
competitividade em baixos salários, nem na abundância dos recursos naturais,
mas sim através de elementos básicos do desenvolvimento que são portadores do
futuro: a produção, aprendizagem e difusão do conhecimento e a qualidade dos
recursos humanos disponíveis.
Para
dar conta de tais aspectos, a CEPAL apresenta a educação como mecanismo
essencial e prioritário para assegurar o acesso universal aos códigos da
modernidade. Aposta-se no domínio de um conjunto de conhecimentos e destrezas,
transmitidos pela escola, necessários para a participação na vida pública e
também para o aumento da produtividade.
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