Educação e politicas publicas - parte IV
fundamentais,
uma vez que são determinantes para o acesso universal aos códigos da
modernidade, para impulsionar a criatividade no acesso, difusão e inovação
científico-tecnológica. Há destaque para a necessidade de se firmar um
compromisso da sociedade civil com a educação.
A
partir de um conjunto de exemplos e situações consideradas bem-sucedidas,
reitera-se a aposta na educação - uma vez seguido o "receituário", os
resultados serão tão exitosos quanto aqueles apresentados nos documentos
oficiais - enfoque que parece desconsiderar o processo histórico que está na
origem da constituição de cada um dos países. Aparentemente não há destaque
para as diferentes relações existentes e resultantes de seus cenários
econômico, social, político e cultural.
O
UNICEF e a Conferência Mundial de Educação para Todos
A
Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em Jomtien (Tailândia) em
1990, sob orientação do UNICEF/PNUD, expressa e reforça a fundamentalidade da
educação básica. A proposta originada desta Conferência está voltada para a
idéia de "satisfação das necessidades básicas de aprendizagem", cuja
realização solicita a integração da educação às demais políticas sociais.
Explicita-se, ao mesmo tempo, uma preocupação em difundir o conceito de
"desenvolvimento humano", procurando dar ao processo de ajuste
econômico, promovido pelos organismos financeiros internacionais, um
"rosto humano".
Há
nas proposições o reconhecimento das necessidades singulares a serem atendidas
em relação a cada etapa do processo de ensino-aprendizagem. Neste sentido, tal
como expresso, as necessidades básicas abarcam tanto as ferramentas essenciais
para o aprendizado (como a leitura e a escrita, a expressão oral, o cálculo, a
solução de problemas), como os próprios conteúdos do aprendizado básico
(conhecimentos teóricos e práticos, valores e atitudes), necessários para que
os seres humanos possam sobreviver, desenvolver plenamente suas capacidades,
viver e trabalhar com dignidade, participar plenamente no desenvolvimento,
melhorar a qualidade de sua vida, tomar decisões fundamentais e continuar
aprendendo. A proposta de Jomtien dá ênfase à educação enquanto estratégia
integradora do homem à sociedade contemporânea e ao mundo do trabalho.
As
determinações da Conferência estão marcadas por um discurso voluntarista que se
expressa, principalmente, através da proposta de avançar até a meta de
universalização da educação básica, em um contexto onde a noção de qualidade
toma o lugar da quantidade. Está presente a idéia de que a satisfação das
necessidades básicas de aprendizagem conduz ao desenvolvimento humano, fazendo
com que o instrumental apareça subordinado a valores do código ético/moral.
Neste sentido, ao se transformar em uma proposta de desenvolvimento humano, o
discurso elaborado em Jomtien, aparentemente, contraria a idéia de deixar nas
mãos do mercado mundial a decisão sobre qual projeto de desenvolvimento
implantar nos diferentes países.
Entusiasmo,
crítica e proposições: o debate decorrente do "receituário"
internacional
As
proposições para a educação gestadas pelos diferentes organismos internacionais
têm provocado um intenso debate entre estudiosos da educação na América Latina
e, em particular, no Brasil. Esse debate expressa-se em análises que reiteram o
ideário difundido, outras que estabelecem uma profunda crítica e outras que
procuram identificar "brechas" para uma atuação comprometida com os
valores da cidadania.
Os
estudos que reiteram o ideário difundido pelos organismos internacionais partem
do reconhecimento dos problemas identificados no sistema educacional brasileiro
e indicam alternativas para a melhoria da qualidade do ensino, objetivando
contribuir para a inserção do país no contexto econômico internacional. Temas
como descentralização, gestão, financiamento, avaliação da educação estão
presentes e têm como referência as experiências internacionais consideradas
bem-sucedidas. São estudos que salientam a importância do envolvimento da
iniciativa privada na busca de soluções para a problemática educacional no
país.
Outros
estudos vêm se contrapondo à perspectiva difundida pela tendência acima,
freqüentemente identificada por sua linearidade, pragmatismo e até mesmo por um
suposto comportamento mimético, expresso na propensão de lançar mão de
experiências exitosas, endossando de modo acrítico as proposições das
organizações internacionais. Em linhas gerais, esses estudos enfatizam que os
defensores do discurso dos organismos internacionais estariam privilegiando a
qualidade em detrimento da igualdade e democracia; ademais, grande parte dos
debates sobre escola e educação estaria ocorrendo a partir dos requerimentos do
segmento empresarial.
Os
estudos que buscam as "brechas" nos debates sobre o tema, ao mesmo
tempo em que fazem críticas à incorporação mimética das propostas dos
organismos internacionais, procuram dar conta das mudanças e requerimentos que
vêm sendo insistentemente colocados pelo cenário socioprodutivo contemporâneo.
Para
além deste debate é preciso destacar que começa a se conformar, internamente
aos próprios organismos, uma postura revisionista acerca dos pressupostos que
ao longo dos anos 90 têm marcado o ideário difundido.
UNESCO
/ OREALC: um discurso revisionista
Neste
final de década, evidencia-se nos debates propostos por uma das agências
internacionais – UNESCO - uma crítica que, supomos, manteve-se latente. Dois
momentos são significativos. Um diz respeito às recentes análises e
considerações feitas por uma comissão internacional às proposições mais gerais
elaboradas por essa agência e sistematizadas no "Relatório Delors".
Outro momento refere-se ao balanço sobre a atuação da UNESCO no cenário da
América Latina, recentemente publicado. Ainda que complementares e apresentando
pontos em comum, optamos por analisar separadamente esses momentos.
O
"Relatório Delors"
O
relatório elaborado por Jacques Delors, produto dos debates que ocorreram no
âmbito da UNESCO no final desta década, reitera o papel central da educação
para os processos de desenvolvimento sustentável, tema amplamente debatido
pelas demais agências e organismos internacionais, mas enfatiza, sobretudo, que
a educação não deve ser vista como "remédio milagroso", capaz de
resolver todos os problemas dos países. Ocorre que,
/.../
muitas vezes atribui-se ao sistema de formação a responsabilidade pelo
desemprego. A constatação só é justa em parte, e sobretudo, não deve servir
para ocultar outras exigências políticas, econômicas e sociais a satisfazer, se
se quiser alcançar o pleno emprego ou permitir o arranque das economias
subdesenvolvidas. Dito isto, e voltando à educação, a Comissão pensa que
sistemas mais flexíveis, com maior diversidade de cursos e com possibilidades
de transferências entre diversas categorias de ensino ou, então, entre a
experiência profissional e o retomar da formação, constituem respostas válidas
às questões postas pela inadequação entre a oferta e a procura de emprego. Tais
sistemas levariam, também, à redução do insucesso escolar que /…/ causa enorme
desperdício de recursos humanos.
Na
busca de soluções e/ou encaminhamentos para os problemas socioeconômicos,
dentre outros, o relatório coloca em discussão a necessidade de superar um
conjunto de tensões que estão presentes no mundo contemporâneo e, para o campo
da educação, propõe o conceito de "educação ao longo de toda a vida",
estratégia identificada como uma das chaves para o século XXI. Quatro pilares
orientam a proposição educativa: aprender a conhecer, aprender a viver juntos,
aprender a fazer e aprender a ser.
O
relatório reforça os princípios da Conferência de Jomtien, as necessidades
básicas de aprendizagem e propõe combinar a escola clássica com as
contribuições exteriores à escola, o que possibilitaria ao educando o acesso às
diferentes dimensões da educação: ética e cultural, científica e tecnológica e
econômico-social.
Apesar
dos esforços feitos no sentido de ampliar a cobertura educacional, o relatório
destaca a manutenção de altas taxas de analfabetismo no mundo, sobretudo nos
países pobres, aspecto considerado como obstáculo para a
/…/
concretização de verdadeiras sociedades educativas. Se soubermos ter em conta
as desigualdades e se nos empenharmos em corrigi-las, através de medidas
enérgicas, a educação, ao longo de toda a vida, poderá dar novas oportunidades
aos que não puderam, por razões várias, ter uma escolaridade completa ou que
abandonaram o sistema educativo em situação de insucesso.
O
relatório resgata a importância do setor público quer na proposição quer na
condução da política educacional. Ao mesmo tempo, reforça a definição de
parcerias enquanto estratégia capaz de garantir o acesso de um maior número de
pessoas aos serviços educativos. É atribuição dos poderes públicos suscitar
acordos entre os diferentes atores envolvidos com a questão educacional;
garantir a organicidade entre as diferentes categorias de ensino; garantir que
políticas educacionais sejam de longo prazo, favorecendo sua continuidade. Cabe
ainda aos poderes públicos garantir a estabilidade do sistema educativo e
proporcionar o estabelecimento de parcerias e encorajamento de inovações
educativas.
Numa
direção próxima, e resgatando a importância do Estado na definição das
propostas educacionais, está o balanço da atuação da UNESCO na América Latina
elaborado por técnicos dessa agência.
A
UNESCO na América Latina: um balanço de sua atuação.
Através
de um documento recentemente publicado, a UNESCO faz um balanço sobre sua
presença no processo de desenvolvimento educativo na América Latina, ao longo
das últimas décadas, estabelecendo pontos de reflexão que, em certa medida,
questionam o modelo até então predominante. Para os anos 80 o documento destaca
as políticas promovidas em torno da extensão quantitativa da educação, da
superação da pobreza e da desigualdade educativa e a tentativa de dar respostas
a problemas conjunturais com propostas de curto prazo.
Já
nos anos 90, o eixo está na qualidade da educação e, em particular, na
qualidade da gestão do sistema, considerada central para o desenvolvimento e crescimento
dos países. Novos desafios se impõem à educação a partir de reformas educativas
mais globais, cujo marco é a Conferência Mundial de Educação para Todos,
realizada em 1990. Ao mesmo tempo, há clareza sobre a persistência de problemas
qualitativos na educação e sobre o descompasso entre crescimento quantitativo
com níveis satisfatórios de eqüidade e qualidade.
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