Educação e politicas publicas - parte V
Para
o final dos anos 90, a
UNESCO enfatiza a necessidade de que as políticas educativas promovam a
inclusão dos excluídos, não mais através de medidas compensatórias como ocorria
no passado, mas introduzindo modificações no sistema educativo comum que
permitam ajustar o ensino às diferenças individuais, sociais e culturais. Ao
mesmo tempo, destaca a importância de fortalecer a função do Estado para
assegurar a igualdade de oportunidades.
É
interessante notar que os estudos vêm demonstrando que apenas a educação não é
suficiente para dar conta de processos de mudança em seus diferentes aspectos
e, neste sentido, é fundamental diagnosticar as carências e demandas das
diferentes regiões e países, articulando-as com o potencial que há na educação,
em seus diferentes níveis e graus. É preciso, ainda, estabelecer ligações entre
o aprendizado escolar e o profissional, de modo a favorecer a inserção e
permanência do adulto pouco escolarizado no mercado de trabalho. São práticas
que contribuem para a conformação de políticas voltadas para a distribuição de
renda.
Com
suporte nas considerações feitas uma questão permanece em aberto – de que forma
a política educacional brasileira, quer em suas orientações, estratégias ou
ações, está permeada pelos pressupostos difundidos pelos diferentes organismos
internacionais? Ou seja, em que medida a política educacional em curso vem
incorporando os ditames do mundo globalizado? Na seção que segue abordamos
alguns dos pontos que respondem a tais indagações.
A
Agenda Educacional Brasileira: Temas que Orientam o Debate.
Para
o cenário brasileiro, em face da baixa qualidade historicamente identificada no
sistema educacional, resultante, entre outros motivos, da pouca atenção à
política de educação básica, o tema tem sido amplamente debatido por diferentes
segmentos da sociedade - empresários, trabalhadores, entidades sindicais - e
faz parte de um número crescente de estudos realizados por sociólogos,
economistas, pedagogos e administradores. Há um movimento difuso que aponta a
educação como "mecanismo" facilitador e potencializador da capacidade
das pessoas na realização de tarefas, no processamento e utilização das informações,
na adaptação às novas tecnologias e métodos produtivos. Parte-se do pressuposto
de que a melhora do nível geral de educação de um país concorre para a formação
de trabalhadores mais flexíveis na sua capacitação profissional, o que tem uma
interface com a produtividade. Considera-se, ainda, o investimento em educação
como a melhor forma de aumentar os recursos da população mais pobre.
Esses
são aspectos que estão presentes na agenda educacional brasileira e que se
materializam na política educativa desenhada. São aspectos que permitem
questionar sobre o efetivo potencial da educação, de caráter geral, na
definição de respostas às novas solicitações o que, de certo modo, recoloca a
relação educação e trabalho no centro da arena de debates. Para entender a
dinâmica que está sendo construída, privilegiamos alguns dos temas discutidos,
muitas vezes decorrentes de proposições que extrapolam o campo propriamente
educativo.
A
agenda educacional brasileira priorizou, ao longo dos anos 80, a expansão quantitativa
da oferta, ampliando o acesso com a expansão da rede física, em detrimento do
aspecto qualitativo. A baixa qualidade, então atribuída ao sistema escolar, foi
associada à insuficiência de recursos para a educação, à centralização das
decisões, à burocratização do sistema educacional, com a privatização e
clientelização da política educacional, à exclusão da comunidade e
profissionais dos processos decisórios e de gestão do sistema. Considerados
obstruidores dos processos de modernização do setor educacional, esses aspectos
orientaram as reformas que tinham como eixo a democratização da educação.
Esses
temas foram incorporados pela agenda educacional dos anos 90, quando a educação
(re)assume uma posição de destaque nas perspectivas da cidadania e da formação
para o trabalho, associada à perspectiva de retomada do crescimento do país.
Diante da crescente incorporação de inovações tecnológicas, da demanda por
novas qualificações e/ou competências, e em face das conseqüências de uma
economia que vem se globalizando, há quase um consenso quando se trata de
apontar que o sistema educacional brasileiro não vem respondendo às
necessidades do novo perfil de qualificação da mão-de-obra.
Nessa
direção, um conjunto de ações orientam a busca da melhoria da qualidade do
sistema educacional tais como: iniciativas de caráter pedagógico voltadas para
a diminuição da repetência e evasão no ensino fundamental, implantação de
sistemas de avaliação, adequação dos conteúdos à população-alvo, redução do
número de alunos por sala, investimentos no corpo docente (recapacitação,
melhoria salarial e melhores condições de trabalho), fornecimento de
equipamentos básicos.
As
reformas propostas partem da idéia de gestão democrática e modernização do
sistema e, como bem destaca Marta Farah visam uma redução da ação estatal e a
incorporação pelas instituições estatais de práticas de gestão características
do setor privado, consideradas eficientes. Faz parte do discurso difundido
pelos idealizadores das propostas a adoção dos parâmetros da Qualidade Total na
escola pública e, ainda, a ênfase na autonomia da escola como estratégia para a
descentralização do sistema.
Estas
idéias têm desdobramentos no cotidiano da atividade escolar uma vez que, como
estratégias, sugerem: construir alternativas eficientes para alocar os recursos
na educação; definir novas formas de articulação da escola com o setor privado
e com a comunidade; terceirizar a gestão escolar; estabelecer parcerias com o
setor privado; estabelecer parcerias com universidades e centros de pesquisa,
quer para o desenvolvimento de programas de formação para os professores, quer
para o estabelecimento de programas temáticos; definir parcerias com as
diferentes esferas do governo e com as organizações não-governamentais, com a preocupação
de racionalizar e melhorar a qualidade da oferta; envolver a população na
formulação e gestão da política educacional e na gestão da escola.
De
certo modo, podemos ainda dizer que as ações do governo federal neste final de
década têm como eixo a implantação de um modelo de reforma do sistema de ensino
articulado ao modelo de reforma do Estado brasileiro. Há uma lógica de reformar
sem aumentar as despesas, procurando adequar o sistema educativo às orientações
e necessidades prioritárias da economia.
Algumas
ações vêm concretizando os pressupostos que orientam a política educacional
brasileira nos últimos anos, tal como destacamos a seguir.
Ações
Que Orientam a Implantação da Reforma Educacional no Brasil.
Em
primeiro lugar, é preciso não esquecer que ações propostas para a implantação
de qualquer reforma educacional são resultantes de opções e decisões políticas
e, portanto, estão articuladas ao projeto de sociedade que os governos definem
para os diferentes cenários históricos e conjunturais. Neste sentido, e em um
plano mais geral, enfatizamos a interface entre as idéias anteriormente
destacadas e o texto da nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), aprovada em
dezembro de 1996, que apresenta dentre suas características uma maior
flexibilidade na organização e funcionamento do ensino.
No
cotidiano, tal medida se desdobra na interferência do governo federal no
financiamento para a educação, favorecendo a descentralização e municipalização
do ensino fundamental. Ao mesmo tempo foi implantado, e hoje está em vigor, o
Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino e de Valorização do Magistério
(FUNDEF), objetivando garantir as transferências de verbas para o Ensino
Fundamental dos Estados, Distrito Federal e Municípios.
Faz
parte da reforma educacional proposta a incorporação de programas de aceleração
de estudos e regularização do fluxo escolar, aspectos que contribuiriam para a
diminuição das taxas de evasão, repetência e inadequação entre idade do aluno e
série cursada.
Outros
desdobramentos da reforma educacional que têm produzido impactos no cotidiano
escolar referem-se à definição dos Parâmetros Curriculares Nacionais e ao
Sistema de Avaliação do Ensino Básico (SAEB). O objetivo dos Parâmetros foi o
de fornecer subsídios para a elaboração e/ou revisão curricular de cada Estado,
Município e escola, orientando a formação de professores. Quanto ao SAEB, o MEC
difunde a idéia de que somente a partir de informações e análise do desempenho
dos alunos será possível traçar medidas que possam interagir diretamente com
temas como diminuição da repetência, dentre outros.
Para
além destes aspectos, não podemos deixar de destacar a exclusão do tema da
educação de jovens e adultos no cenário da educação básica. Além de contrariar
as próprias orientações da Constituição de 1988, que reconhece e confere
obrigação ao Estado na promoção de programas para a população que não
freqüentou a escola à época adequada, parece que a esta modalidade de ensino
foi conferido estatuto político assistencial e compensatório, cuja
responsabilidade vem sendo atribuída à iniciativa privada.
Algumas
questões finais.
Em
seu conjunto, longe de qualquer consenso, esses aspectos têm sido objeto de
inúmeros questionamentos e críticas. No tocante à gestão para ganhos de
qualidade e eqüidade, algumas das análises sugerem que não há garantias de que
o processo de descentralização seja a melhor forma para enfrentar os problemas
da educação. Questiona-se qual é o papel do Estado nos sistemas
descentralizados e, ao mesmo tempo, sobre o que e como descentralizar, questões
que exigem uma avaliação constante do processo. Quanto aos elos entre educação
e as novas demandas da economia, da sociedade e da cultura é essencial
aprofundar a reflexão sobre os impactos das mudanças socioprodutivas no campo
educacional.
Também
sobre a gestão e os processos pedagógicos pensados para melhorar a qualidade da
educação, ao mesmo tempo em que há consenso sobre a necessidade de modernizar a
gestão da escola para torná-la eficaz e responsável por seus resultados, o
instrumental metodológico, em face da especificidade do campo da educação,
certamente precisa ser diferente daquele utilizado pelas empresas. Conhecimento
e aprendizagem, profissionalização dos docentes; materiais educativos e novas
formas de comunicação; investigações sobre os jovens na escola; a relação
escola-família, dentre outros, são pontos que devem ser objeto de maior
investigação, análise, reflexão e proposições.
Nesse
quadro, ainda que se reconheça a importância de programas voltados para a população
adulta, a ela reserva-se um espaço pequeno. A maior parte das proposições tem
como foco a educação formal básica para crianças e aquelas voltadas para o
adulto objetivam, em primeira instância, a superação do analfabetismo. Estas
proposições, que partem de experiências educativas consideradas exitosas, estão
voltadas à superação da pobreza, às demandas da produção e conclamam para o
exercício da cidadania, com vista a um modelo denominado "desenvolvimento
humano".
Ao
mesmo tempo, não podemos esquecer que todas as proposições e ações educacionais
se materializam em um espaço concreto, que é a escola e a sala de aula,
envolvido em um cotidiano singular.
Em
resumo, longe de negar a fundamentalidade da educação geral para o contexto
econômico e social contemporâneo, muitas indagações permanecem presentes. Ao
mesmo tempo em que corremos o risco de tentar transpor, de forma linear,
modelos educacionais considerados exitosos em países de economia avançada para
o cenário nacional, há o risco de superestimar as contribuições da educação
geral formal para o processo de modernização da produção e do país, como se
tais mudanças dependessem, essencialmente, da educação. Este debate pode
tornar-se mais orgânico e mais denso na medida em que conseguir explicitar, num
prazo mais longo, como a educação pode efetivamente contribuir para as mudanças
e, sobretudo, qual educação. É preciso ter claro, portanto, que a educação deve
ser vista como integrante de um conjunto de políticas públicas e sociais.
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