Educação e políticas públicas: questões para o debate
Parte I
Rosa
Elisa M. Barone*
A
proposta de discutir o tema da educação no quadro das políticas públicas
contemporâneas nos conduz a recuperar não apenas questões ligadas à definição,
manutenção e/ou (re)direcionamento das políticas em curso, mas, e sobretudo,
nos obriga a reconstruir, mesmo que parcialmente, as ligações entre o contexto
socioprodutivo e político brasileiro e as concepções neoliberais gestadas no
âmbito internacional. São questões estreitamente vinculadas às políticas
educacionais, que vêm sendo implantadas no país e, em âmbito mais geral, à
definição e promoção das políticas sociais.
Qual
é o impacto da adoção das proposições sociopolíticas identificadas com o
ideário neoliberal na conformação da políticas sociais e públicas? De que forma
esse ideário está presente no campo da educação? Quais são os desdobramentos da
adoção dos princípios neoliberais na política de educação do país? Essas são
algumas das questões que constituem o pano de fundo de nossa reflexão.
Partimos
da idéia de que o quadro sócio-político e econômico desenhado desde meados dos
anos 70 tem implicado a definição das políticas sociais, a relação entre o
público e o privado, os debates sobre a redefinição do papel do Estado, tocando
na problemática do emprego e desemprego. De forma ampla esses temas têm lugar
de destaque nos debates e proposições feitas por agências e organismos
internacionais; estão na agenda de debates de diferentes setores e segmentos da
sociedade e interagem com as políticas educacionais, sobretudo dos países em
desenvolvimento.
Para
o campo da educação, como decorrência das solicitações que emergem desse
cenário em mudança, parece que se definem vínculos quase lineares e relações de
causa-efeito entre o nível e grau de escolaridade da população e a sua
capacidade de entrar e permanecer no mercado de trabalho, bem como com o seu
desempenho produtivo. Trata-se de novas solicitações feitas à educação e à
escola, à comunidade, aos trabalhadores, tendo em vista a busca de maior
produtividade, qualidade e competitividade, marcas de uma economia de mercado
em crescente processo de globalização. Muitas vezes identificado com a
conformação de uma "nova ordem" mundial, esse processo, que não é
novo, redefine os conceitos de espaço e tempo a partir, principalmente, das tecnologias
baseadas na microinformática.
Ao
mesmo tempo, mudam as demandas do trabalho, muda o perfil do emprego, busca-se
um trabalhador conectado ao processo de mudança. A exigência de adquirir a
capacidade de adaptação às mudanças, de compreender os novos processos técnicos
decorrentes das novas tecnologias, de saber comunicar-se de forma eficiente,
são requisitos que se impõem, confirmando uma lógica que privilegia a
capacidade de as pessoas se adequarem às novas situações, sobretudo no que diz
respeito ao aprendizado contínuo.
Para
dar conta de nossa proposta, apresentamos, de forma panorâmica, algumas das
mudanças sociopolíticas e econômicas em curso nos últimos anos e suas
implicações nas políticas sociais e públicas. Destacamos a emergência de uma
nova dinâmica na relação entre os setores público e privado, amplamente
respaldada pelo discurso elaborado pelos organismos e agências internacionais,
bem como a forma como tal dinâmica tem impactado o campo da educação. Nesta
direção, recuperamos alguns dos principais temas que vêm compondo a agenda de
debates sobre a educação no país ao longo dos anos 80 e 90, destacando as ações
que neste final de década orientam a implantação da reforma educacional em
curso no Brasil. Por fim, a partir da crítica que vem sendo feita a tais
proposições, procuramos destacar questões que permanecem em debate e,
sobretudo, ainda longe de qualquer conclusão.
A
"nova ordem" mundial e suas implicações
Algumas
reflexões
A
utilização do termo "nova ordem" mundial para designar o cenário
sociopolítico e econômico contemporâneo está intimamente relacionada às grandes
mudanças que estão sendo desencadeados no mundo ao longo das últimas décadas e
que ganharam corpo principalmente nos anos 90. Um conjunto de situações "novas"
estariam a exigir "novas" ações e políticas e até mesmo um "novo
olhar" sobre o mundo. A internacionalização, mundialização e globalização
dos mercados econômicos, a tendência de redefinição do papel do Estado e as
decorrências das transformações tecnológicas e organizacionais estão na base do
quadro, produzindo diferentes impactos no campo das políticas sociais e
públicas.
No
tocante ao processo de globalização da economia um dos impactos mais marcantes
refere-se à diluição da identidade nacional dos países, expressa na definição
de "novos" campos de atuação que independem dos limites geopolíticos
anteriormente definidos. Emerge uma figura volátil denominada por Chomski de
"novos senhores do mundo" que se manifesta, sobretudo, no crescimento
da importância das agências de cooperação e/ou dos organismos financeiros
internacionais e na definição de grupos de países já hegemônicos.
Ainda
na perspectiva de redimensionamento do capitalismo contemporâneo, destaca-se a
nova configuração do globo entre Norte (países desenvolvidos) e Sul (países em
desenvolvimento), no lugar da contraposição entre países do Ocidente e do Leste
europeu, que até o final dos anos 80 era a expressão da "Guerra
Fria". A hegemonia dos países do Norte está claramente presente na
definição do G-7 que, por suposto, detém o controle dos organismos financeiros
internacionais e impõe diretrizes aos demais. Ao mesmo tempo, constituem-se os
blocos - Nafta, União Européia, Mercosul - com desdobramentos no campo
propriamente produtivo.
Inúmeras
são as manifestações deste fenômeno que, se não é novo, assume a feição de novo
por sua velocidade, abrangência e, particularmente, por uma nova dimensão do
tempo e espaço. O crescimento econômico do Sudeste asiático e a emergência dos
chamados "tigres asiáticos" são emblemáticos. Orientados pelo ideário
do capital difundido pelas agências de desenvolvimento internacional, esses
países passaram a condição de "meca" da produção industrial mundial,
gradualmente pulverizada. Oferecendo condições favoráveis ao capital, tais como
uma força de trabalho mais barata, diminuição de impostos e grandes incentivos
governamentais, inexpressividade da ação sindical e legislação trabalhista
flexível, trabalhadores com uma boa formação escolar, esses países
proporcionaram uma situação privilegiada para que os preceitos do processo de
globalização dos mercados se efetivassem.
Quanto
à redefinição do papel do Estado, verifica-se a confluência de um conjunto de
determinantes históricos que tocam, sobremaneira, o tema das políticas sociais
nesse final de século. Nesta perspectiva, podemos dizer que ao longo da década
de 70 os países, tanto desenvolvidos quanto aqueles em desenvolvimento, dentre
eles os países da América Latina, vivenciaram uma profunda redefinição do papel
do Estado no campo social.
/…/
Essa redefinição está associada, /…/, à crise do Welfare State e a uma profunda
redefinição do papel do Estado. Com essa redefinição se constituiu uma agenda
de reformas, de inspiração neoliberal, que aponta para novas formas de resolução
da crise. Tal agenda, na esfera da política social, está centrada em um
conjunto articulado de proposições. Em primeiro lugar visa redefinir o balanço
entre as esferas pública e privada, via redução da intervenção do Estado na
esfera de bens e serviços de natureza social. À esfera pública caberia uma ação
direcionada para os grupos sociais impossibilitados de responder às ofertas de
mercado para o provimento destes serviços. Em segundo lugar, a oferta pública
deveria assumir a qualificação simplificada e de baixo custo para assegurar
maior abrangência e maior eficácia na relação custo/benefício. Ainda nessa
linha busca-se instituir mecanismos de controle e recuperação de custos, como,
por exemplo, a cobrança de taxas seletivas. Em terceiro, o estímulo à
privatização através de fomento ao mercado de assistência médica voltado para
empresas e assalariados de média e alta rendas, bem como à privatização da
previdência social.
Em
seu conjunto essas mudanças foram reforçadas no início dos anos 90, através do
que se denominou Consenso de Washington. Há um casamento entre as proposições
elaboradas pelos organismos internacionais e o "receituário"
difundido nos países em desenvolvimento, ou "emergentes". Ainda que
as mudanças sugeridas sejam questionáveis, quer do ponto de vista da
"novidade" quer da sua eficácia, não há como negar a importância que
os organismos internacionais ganharam, sobretudo quando passaram a reforçar o
papel já exercido pelos países desenvolvidos. Como um dos desdobramentos dessas
mudanças consolidou-se
/…
tanto nos países avançados como nos países em desenvolvimento, a imagem do
Estado como problema, estabelecendo-se uma polarização Estado–mercado, em que,
em contraposição ao mercado, tido como eficiente, ágil e capaz de oferecer produtos
e serviços de qualidade, o Estado passou a ser visto como ineficiente, incapaz
e provedor de serviços de baixa qualidade.
Ademais,
em um cenário que aponta como alternativa para o Estado seu distanciamento ou
sua "saída" das questões afeitas ao mercado e à proposição de
políticas sociais, a história recente apresenta exemplos que permitem
questionamentos sobre o modelo em pauta. Países como Inglaterra, de Margareth
Thatcher, e Estados Unidos, de Ronald Reagan, que foram emblemáticos na
condução de políticas econômicas fortemente marcadas pelos preceitos
neoliberais expressos na diminuição dos gastos sociais, nos processos de
privatização, dentre outros, vêm anunciando uma tendência de recomposição das
orientações do Welfare State. Para o caso específico da Inglaterra destaca-se o
desenho de um "novo" modelo que vem sendo denominado de Terceira Via.
Outro
aspecto integrante da idéia da "nova ordem" mundial refere-se à
revolução tecnológica em curso e às múltiplas questões dela decorrentes. Ao
mesmo tempo em que estamos diante de uma nova dinâmica do processo produtivo e
organizacional, com impactos no aumento da produção e da produtividade, quando
se produz mais, em menor tempo e com menor número de trabalhadores,
defrontamo-nos com um dos mais sérios dramas do mundo contemporâneo – a
ampliação veloz e em escala mundial do desemprego.
É
parte desse cenário produtivo a solicitação de uma força de trabalho mais
qualificada e apta a "aprender a aprender" as novas qualificações que
vão sendo forjadas. Ao mesmo tempo, novas competências são exigidas para a vida
em sociedade.
Demanda-se uma força de trabalho com características diversas
daquelas exigidas pelos modelos produtivos de base taylorista/fordista, pois o
momento atual requer um trabalhador que vá além da simples execução de tarefas.
De um lado, solicita-se o cumprimento de funções mais cerebrais – raciocínio
lógico, resolução de questões e problemas que surgem no cotidiano do trabalho,
disposição de estar sempre aprendendo - e, de outro, cobra-se um novo padrão
atitudinal – uma força de trabalho cooperativa, que tenha autonomia, seja
comunicativa e, sobretudo, que se identifique com a empresa. Insere-se nesse
contexto o tema da educação. Insistentemente presente no discurso de amplos e
diferentes segmentos da sociedade, atribui-se, sobretudo à educação básica de
caráter geral, o papel estratégico de promover o desenvolvimento das novas
capacidades requeridas do trabalhador.
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