FIGURAS DE LINGUAGEM: FIGURAS DE PALAVRA
As figuras de palavra consistem no
emprego de um termo com sentido diferente daquele convencionalmente empregado,
a fim de se conseguir um efeito mais expressivo na comunicação.
São figuras de palavras:
a) comparação
e) catacrese
b) metáfora f) sinestesia
c) metonímia g) antonomásia
d) sinédoque h) alegoria
·
Comparação
Ocorre comparação
quando se estabelece aproximação entre dois elementos que se identificam,
ligados por conectivos comparativos explícitos - feito, assim como, tal, como,
tal qual, tal como, qual, que nem - e alguns verbos - parecer, assemelhar-se e
outros.
Exemplos:
"Amou daquela vez como se fosse máquina.
Beijou sua mulher como se fosse lógico."
(Chico Buarque)
"As
solteironas, os longos vestidos negros fechados no pescoço, negros xales nos
ombros, pareciam aves noturnas
paradas..."
(Jorge Amado)
·
Metáfora
Ocorre metáfora
quando um termo substitui outro através de uma relação de semelhança resultante
da subjetividade de quem a cria. A metáfora também pode ser entendida como uma
comparação abreviada, em que o conectivo não está expresso, mas subentendido.
Exemplo:
"Supondo o espírito
humano uma vasta concha, o meu fim, Sr.
Soares, é ver se posso extrair pérolas, que é a razão."
(Machado de Assis)
·
Metonímia
Ocorre metonímia
quando há substituição de uma palavra por outra, havendo entre ambas algum grau
de semelhança, relação, proximidade de sentido ou implicação mútua. Tal
substituição fundamenta-se numa relação objetiva, real, realizando-se de
inúmeros modos:
Antes de sair, tomamos um cálice1 de licor.
1 O conteúdo de um cálice.
"E assim o operário ia
Com
suor e com cimento 2
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento."
(Vinicius de Moraes)
2 Com trabalho.
Comprei uma garrafa do legítimo porto 3.
3 O vinho da cidade do Porto.
Ela parecia ler Jorge Amado 4.
4 A obra de Jorge Amado.
Não devemos contar com o seu coração 5.
5 Sentimento, sensibilidade.
A coroa 6 foi
disputada pelos revolucionários.
6 O poder.
Lento, o bronze 7 soa.
7 O sino.
Edson 8 ilumina o
mundo.
8 A energia elétrica.
Vou à Prefeitura 9.
9 Ao edifício da Prefeitura.
Ele é um bom garfo 10.
10 Guloso, glutão.
·
Sinédoque
Ocorre sinédoque
quando há substituição de um termo por outro, havendo ampliação ou redução do
sentido usual da palavra numa relação quantitativa. Encontramos sinédoque nos
seguintes casos:
"A cidade inteira 1 viu assombrada, de queixo caído, o pistoleiro sumir de
ladrão, fugindo nos cascos 2 de seu cavalo."
(J. Cândido de Carvalho)
1 O povo.
2 Parte das patas.
O
paulista 3 é tímido; o
carioca 4, atrevido.
3 Todos os paulistas.
4 Todos os cariocas.
Para os artistas ele foi um mecenas 5.
5 Protetor.
Modernamente, a metonímia engloba a sinédoque.
·
Catacrese
A catacrese é um
tipo de especial de metáfora, "é uma espécie de metáfora desgastada, em
que já não se sente nenhum vestígio de inovação, de criação individual e
pitoresca. É a metáfora tornada hábito lingüístico, já fora do âmbito
estilístico."
(Othon M. Garcia)
São exemplos de catacrese:
folhas de livro pele de tomate
dente de alho montar em burro
céu da boca cabeça de prego
mão de direção ventre da terra
asa da xícara sacar dinheiro
no banco
·
Sinestesia
A sinestesia
consiste na fusão de sensações diferentes numa mesma expressão. Essas sensações
podem ser físicas (gustação, audição, visão, olfato e tato) ou psicológicas
(subjetivas).
Exemplo:
"A minha
primeira recordação é um muro velho, no quintal de uma casa indefinível. Tinha
várias feridas no reboco e veludo de musgo. Milagrosa aquela mancha verde [sensação visual] e úmida,
macia[sensações táteis], quase
irreal."
(Augusto Meyer)
·
Antonomásia
Ocorre antonomásia
quando designamos uma pessoa por uma qualidade, característica ou fato que a
distingue.
Na linguagem coloquial, antonomásia é o mesmo que
apelido, alcunha ou cognome, cuja origem é um aposto (descritivo,
especificativo etc.) do nome próprio.
Exemplos:
"E ao rabi simples 1, que a
igualdade prega,
Rasga e enlameia a túnica inconsútil;
(Raimundo Correia)
1 Cristo
Pelé (= Edson Arantes do Nascimento)
O Cisne de Mântua (= Virgílio)
O poeta dos escravos (= Castro Alves)
O Dante Negro (= Cruz e Souza)
O Corso (= Napoleão)
·
Alegoria
A alegoria é uma
acumulação de metáforas referindo-se ao mesmo objeto; é uma figura poética que
consiste em expressar uma situação global por meio de outra que a evoque e
intensifique o seu significado. Na alegoria, todas as palavras estão
transladadas para um plano que não lhes é comum e oferecem dois sentidos
completos e perfeitos - um referencial e outro metafórico.
Exemplo:
"A vida é uma
ópera, é uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença
do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam
pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros
numerosos, muitos bailados, e a orquestra é excelente..."
(Machado de Assis)
FIGURAS DE LINGUAGEM: FIGURAS DE HARMONIA
Chamam-se figuras
de som ou de harmonia os efeitos produzidos nalinguagem quando há repetição de sons ou, ainda,
quando se procura "imitar"sons produzidos por coisas ou seres.
As figuras de harmonia ou de som são:
a) aliteração c) assonância
b) paronomásia d) onomatopéia
·
Aliteração
Ocorre aliteração
quando há repetição da mesma consoante ou de consoantes similares, geralmente
em posição inicial da palavra.
Exemplo:
"Toda gente homenageia Januária na janela."
(Chico Buarque)
·
Assonância
Ocorre assonância
quando há repetição da mesma vogal ao longo de um verso ou poema.
Exemplo:
"Sou Ana, da cama
da cana, fulana, bacana
Sou Ana de Amsterdam."
(Chico Buarque)
·
Paronomásia
Ocorre paronomásia
quando há reprodução de sons semelhantes em palavras de significados
diferentes.
Exemplo:
"Berro pelo aterro pelo desterro
berro por seu berro pelo seu erro
quero que você ganhe que você
me apanhe
sou o seu bezerro gritando mamãe."
(Caetano Veloso)
·
Onomatopéia
Ocorre quando uma
palavra ou conjunto de palavras imita um ruído ou som.
Exemplo:
"O silêncio fresco despenca das árvores.
Veio de longe, das planícies altas,
Dos cerrados onde o guaxe passe rápido...
Vvvvvvvv... passou."
(Mário de Andrade)
"Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno."
(Fernando Pessoa)
FIGURAS DE LINGUAGEM: FIGURAS DE PENSAMENTO
As figuras de
pensamento são recursos de linguagem que se referem ao significado das
palavras, ao seu aspecto semântico.
São figuras de pensamento:
a) antítese d) apóstrofe g) paradoxo
b) eufemismo e) gradação h) hipérbole
c) ironia f) prosopopéia i) perífrase
·
Antítese
Ocorre antítese
quando há aproximação de palavras ou expressões de sentidos opostos.
Exemplo:
"Amigos ou inimigos estão,
amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal."
(Rui Barbosa)
·
Apóstrofe
Ocorre apóstrofe
quando há invocação de uma pessoa ou algo, real ou imaginário, que pode estar
presente ou ausente. Corresponde ao vocativo na análise sintática e é utilizada
para dar ênfase à expressão.
Exemplo:
"Deus! ó Deus! onde estás, que não respondes?"
(Castro Alves)
·
Paradoxo
Ocorre paradoxo não
apenas na aproximação de palavras de sentido oposto, mas também na de idéias
que se contradizem referindo-se ao mesmo termo. É uma verdade enunciada com
aparência de mentira. Oxímoro (ou oximoron) é outra designação para paradoxo.
Exemplo:
"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem
doer;"
(Camões)
·
Eufemismo
Ocorre eufemismo
quando uma palavra ou expressão é empregada para atenuar uma verdade tida como
penosa, desagradável ou chocante.
Exemplo:
"E pela paz derradeira1 que enfim vai nos redimir Deus lhe pague".
(Chico Buarque)
1 paz
derradeira: morte
·
Gradação
Ocorre gradação
quando há uma seqüência de palavras que intensificam uma mesma idéia.
Exemplo:
"Aqui... além... mais longe por onde
eu movo o passo."
(Castro Alves)
·
Hipérbole
Ocorre hipérbole
quando há exagero de uma idéia, a fim de proporcionar uma imagem emocionante e
de impacto.
Exemplo:
"Rios te correrão dos olhos, se chorares!"
(Olavo Bilac)
·
Ironia
Ocorre ironia
quando, pelo contexto, pela entonação, pela contradição de termos, sugere-se o
contrário do que as palavras ou orações parecem exprimir. A intenção é
depreciativa ou sarcástica.
Exemplo:
"Moça linda, bem tratada,
três séculos de família,
burra como uma porta:
um amor."
(Mário de Andrade)
·
Prosopopéia
Ocorre prosopopéia
(ou animização ou personificação) quando se atribui movimento, ação, fala,
sentimento, enfim, caracteres próprios de seres animados a seres inanimados ou
imaginários.
Também a atribuição
de características humanas a seres animados constitui prosopopéia o que é comum
nas fábulas e nos apólogos, como este exemplo de Mário de Quintana: "O
peixinho (...) silencioso e levemente melancólico..."
Exemplos:
"... os rios vão carregando as queixas do caminho."
(Raul Bopp)
Um frio inteligente (...)
percorria o jardim..."
(Clarice Lispector)
·
Perífrase
Ocorre perífrase
quando se cria um torneio de palavras para expressar algum objeto, acidente
geográfico ou situação que não se quer nomear.
Exemplo:
"Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil."
(André Filho)
FIGURAS DE LINGUAGEM: FIGURAS DE SINTAXE
As figuras de
sintaxe ou de construção dizem respeito a desvios em relação à concordância
entre os termos da oração, sua ordem, possíveis repetições ou omissões.
Elas podem ser construídas por:
a) omissão: assíndeto, elipse e zeugma;
b) repetição: anáfora, pleonasmo e polissíndeto;
c) inversão:
anástrofe, hipérbato, sínquise e hipálage;
d) ruptura: anacoluto;
e) concordância ideológica: silepse.
Portanto, são figuras de construção ou sintaxe:
a) assíndeto e) elipse i) zeugma
b) anáfora f) pleonasmo j) polissíndeto
c) anástrofe g) hiperbato l) sínquise
d) hipálage h) anacoluto
m) silepse
·
Assíndeto
Ocorre assíndeto
quando orações ou palavras deveriam vir ligadas por conjunções coordenativas,
aparecem justapostas ou separadas por vírgulas.
Exigem do leitor atenção maior no exame de cada fato, por exigência das pausas
rítmicas (vírgulas).
Exemplo:
"Não nos
movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se,
apertando-se, fundindo-se."
(Machado de Assis)
·
Elipse
Ocorre elipse quando omitimos um termo ou oração que facilmente podemos
identificar ou subentender no contexto. Pode ocorrer na supressão de pronomes,
conjunções, preposições ou verbos. É um poderoso recurso de concisão e
dinamismo.
Exemplo:
"Veio sem pinturas, em vestido leve, sandálias coloridas." 1
1 Elipse
do pronome ela (Ela veio) e da preposição de (de sandálias...)
·
Zeugma
Ocorre zeugma
quando um termo já expresso na frase é suprimido, ficando subentendida sua
repetição.
Exemplo:
"Foi saqueada a vida, e assassinados os partidários dos Felipes." 1
(Camilo Castelo Branco)
1 Zeugma do verbo: "e foram assassinados..."
·
Anáfora
Ocorre anáfora
quando há repetição intencional de palavras no início de um período, frase ou
verso.
Exemplo:
"Depois o areal extenso...
Depois o oceano de pó...
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só..."
(Castro Alves)
·
Pleonasmo
Ocorre pleonasmo
quando há repetição da mesma idéia, isto é, redundância de significado.
a) Pleonasmo literário
É o uso de palavras
redundantes para reforçar uma idéia, tanto do ponto de vista semântico quanto
do ponto de vista sintático. Usado como um recurso estilístico, enriquece a
expressão, dando ênfase à mensagem.
Exemplo:
"Iam vinte anos desde aquele dia
Quando com os olhos eu quis ver de perto
Quando em visão com os da saudade via."
(Alberto de Oliveira)
"Morrerás morte vil na mão de um forte."
(Gonçalves Dias)
"Ó mar salgado, quando do teu
sal
São lágrimas de Portugal"
(Fernando Pessoa)
b) Pleonasmo vicioso
É o desdobramento
de idéias que já estavam implícitas em palavras anteriormente expressas.
Pleonasmos viciosos devem ser evitados, pois não têm valor de reforço de uma
idéia, sendo apenas fruto do descobrimento do sentido real das palavras.
Exemplos:
subir para
cima
entrar para dentro
repetir de
novo
ouvir com os ouvidos
hemorragia de sangue monopólio exclusivo
breve
alocução
principal protagonista
·
Polissíndeto
Ocorre polissíndeto
quando há repetição enfática de uma conjunção coordenativa mais vezes do que
exige a norma gramatical ( geralmente a conjunção e). É um recurso que sugere
movimentos ininterruptos ou vertiginosos.
Exemplo:
"Vão chegando as burguesinhas pobres,
e as criadas das burguesinhas ricas
e as mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza."
(Manuel Bandeira)
·
Anástrofe
Ocorre anástrofe
quando há uma simples inversão de palavras vizinhas (
determinante/determinado).
Exemplo:
"Tão leve estou 1 que nem
sombra tenho."
(Mário Quintana)
1 Estou tão leve...
·
Hipérbato
Ocorre hipérbato
quando há uma inversão completa de membros da frase.
Exemplo:
"Passeiam à tarde, as belas na Avenida. " 1
(Carlos Drummond de Andrade)
1 As belas passeiam na Avenida à
tarde.
·
Sínquise
Ocorre sínquise
quando há uma inversão violenta de distantes partes da frase. É um hipérbato
exagerado.
Exemplo:
"A grita se alevanta ao Céu, da gente. " 1
(Camões)
1 A grita da gente se alevanta ao
Céu.
·
Hipálage
Ocorre hipálage
quando há inversão da posição do adjetivo: uma qualidade que pertence a uma
objeto é atribuída a outro, na mesma frase.
Exemplo:
"... as lojas loquazes dos
barbeiros." 2
(Eça de Queiros)
2 ... as
lojas dos barbeiros loquazes.
·
Anacoluto
Ocorre anacoluto
quando há interrupção do plano sintático com que se inicia a frase,
alterando-lhe a seqüência lógica. A construção do período deixa um ou mais
termos - que não apresentam função sintática definida - desprendidos dos
demais, geralmente depois de uma pausa sensível.
Exemplo:
"Essas empregadas de hoje, não se pode confiar nelas."
(Alcântara Machado)
·
Silepse
Ocorre silepse
quando a concordância não é feita com as palavras, mas com a idéia a elas
associada.
a) Silepse de gênero
Ocorre quando há
discordância entre os gêneros gramaticais (feminino ou masculino).
Exemplo:
"Quando a gente é novo, gosta de fazer bonito."
(Guimarães Rosa)
b) Silepse de número
Ocorre quando há
discordância envolvendo o número gramatical (singular ou plural).
Exemplo:
Corria gente de todos
lados, e gritavam."
(Mário Barreto)
c) Silepse de pessoa
Ocorre quando há
discordância entre o sujeito expresso e a pessoa verbal: o sujeito que fala ou
escreve se inclui no sujeito enunciado.
Exemplo:
"Na noite seguinte estávamos reunidas
algumas pessoas."
(Machado de Assis)
Autoria: Norberto
Gonçalves
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