O TEXTO OFICIAL: ASPECTOS GERAIS E INTERPRETAÇÕES
Nilce Vieira Campos FERREIRA
(FAZU)
RESUMO:
Este artigo concebe
gêneros como “forma de ação social” (Miller, 1984) e a comunicação escrita oficial como unidade lingüística perceptível, tomada pelos
usuários em situações de interação
comunicativa específica, numa função
reconhecível e reconhecida, independentemente da extensão (Travaglia, 1996). Como
ilustração, apresenta uma análise do gênero ofício; discute estratégias de
construção textual e discursiva. Confere às teorias defendidas por Bakhtin
(1992), e Marcuschi (2002), a consideração do gênero como um sistema
complexo relacionado no contexto
profissional, cuja funcionalidade determina um
conjunto discursivo que o atualiza
a cada vez que é (re)utilizado em uma nova situação de interação comunicativa.
1. Introdução
A materialização do texto se dá em gênero
textual e discursivo, segundo as formas e o modo em que se dá no contexto
social. O conhecimento e o domínio de um gênero textual não implica o domínio
de uma forma lingüística e sim uma forma
de realizar lingüisticamente objetivos específicos em situações sociais
particulares, como diz Bronckart (1999), “a apropriação dos gêneros é um
mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades
comunicativas humanas”, isso permite considerar os gêneros textuais, em certos
contextos, como formas de legitimação discursiva, numa relação sócio-histórica com formas de
produção que lhes dão sustentação, além da justificativa individual.
(Marchuschi, 2002)
Ao locutor
liga-se o interlocutor, aquele a quem se dirige a enunciação e que nela
toma parte. Esta correspondência é aclarada se pensarmos que comunicar não é
só tornar comum uma significação,
mas é também colocar em sincronização/harmonia duas intenções comunicativas.
Assim sendo, esta correlação institui-se igualmente pelo fato de o discurso do
locutor espelhar um cálculo de interpretação a ser levada a efeito pelo
interlocutor nesse mesmo discurso.
Marcuschi (2002) diz
que gêneros textuais podem ser entendidos como sistemas discursivos
complexos, socialmente construídos pela linguagem, com padrões de organização
facilmente identificáveis, e configurados pelo contexto sócio-histórico que
engendra as atividades comunicativas. O autor coloca que temos dois
conhecimentos específicos de modelo textual: a) um conhecimento fundado em
características textuais - aspectos léxicos, prosódicos, sintáticos e
outros; b) conhecimento de modelos funcionais
– que dizem respeito à função
para a qual se destina o texto e considerando aspectos discursivos,
sócio-culturais; rotinas em sentido estrito. É nessa visão de funcionalidade que
nos interessa analisar o gênero ofício, uma vez que nos parece que a função
supera a forma na determinação do gênero. Pode-se dizer que não existe
propriamente um “padrão oficial de linguagem”; o que há é o uso do padrão culto
nos atos e comunicações oficiais. É claro que haverá preferência pelo uso de
determinadas expressões, ou será obedecida certa tradição no emprego das formas
textuais, mas isso não implica, necessariamente, que se consagre a utilização
de uma forma.
A necessidade de empregar
determinado nível de linguagem nos atos e expedientes oficiais decorre, de um
lado, do próprio caráter público desses atos e comunicações; de outro, de sua
finalidade. Os atos oficiais, aqui
entendidos como atos de caráter normativo, ou estabelecem regras para a
conduta dos cidadãos, ou regulam o funcionamento dos órgãos públicos, o que só
é alcançado se em sua elaboração for empregada a linguagem adequada. O mesmo se
dá com os expedientes oficiais, cuja finalidade precípua é a de informar com
clareza e objetividade. As comunicações que partem dos órgãos públicos devem
ser compreendidas por todo e qualquer cidadão brasileiro. Para atingir esse
objetivo, há que evitar o uso de uma linguagem restrita a determinados
grupos. (Manual da Presidência da
República (2002, p.5), isso confere com o que diz Bhatia (1993) “O gênero é um
evento comunicativo socioculturalmente dependente e é tido como efetivo na
medida em que assegura o sucesso pragmático nos negócios ou outros contextos
profissionais em que é usado.” Um ponto de partida para análise que nos pareceu
importante foi a delimitação da noção de gênero.
Conforme definição
apresentada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, volume 2 -
Língua Portuguesa (MEC, 1997), p.
26, em que encontramos: “todo texto se organiza dentro de um determinado
gênero. Os vários gêneros existentes, por sua vez, constituem formas
relativamente estáveis de enunciados, disponíveis na cultura, caracterizados
por três elementos: conteúdo temático, estilo e construção composicional.
Pode-se ainda afirmar que a noção de gêneros
refere-se a 'famílias' de textos que compartilham algumas
características comuns, embora heterogêneas, como visão geral da ação à qual o
texto se articula, tipo de suporte comunicativo, extensão, grau de
literariedade, por exemplo, existindo em
número quase ilimitado.”
Nessa proposta, o gênero foi
entendido como um modo particular de produção e consumo social, isto é, uma
forma de realizar linguisticamente objetivos específicos em situações sociais
particulares, como diz Bronkart (1999) “ a apropriação dos gêneros e um
mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades
comunicativas humanas”.
O texto é visto como profere
Travaglia (1996), uma unidade
lingüística concreta, perceptível por um dos sentidos, que é tomada pelos
usuários da língua (falante, escritor / ouvinte, leitor), em uma situação de
interação comunicativa específica, como uma unidade de sentido e preenchendo
uma função comunicativa reconhecível e reconhecida, independentemente de sua
extensão, ou seja, é preciso considerar
um funcionamento discursivo que o atualiza em diversos sentidos a cada
vez que é (re)utilizado em uma nova situação de interação comunicativa, o que
faz com que não possa ser visto como um produto definitivamente estabelecido de
maneira única.
Buscando compreender e
especificar as características essenciais à redação oficial dos usuários, foi explorado o universo e os
aspectos inerentes a essa comunicação escrita para, a partir daí, discorrer a
respeito de aspectos gerais de modo a
apontar normas de elaboração das
comunicações oficiais e, ainda feições relacionadas diretamente com o texto
como o tipo de linguagem, impessoalidade, formalidade, correção e harmonia,
vigor e ênfase, que são apresentados de modo a possibilitar uma visão de aspectos funcionais e pragmáticos
do gênero ofício.
2. Interpretações contextuais
A organização textual junta num só objeto,
questões de forma e de sentido. A tessitura epistolar pode ser compreendida ao
se ponderar as articulações que se constituem entre as formas lingüísticas
empregadas em determinada tipologia textual e as formas socialmente
estabelecidas para se expressar em uma determinada língua, ou
como diz Bakhtin (1992), os gêneros do discurso. Essas formas relativamente
estáveis de se expressar em uma língua são socialmente construídas,
constituindo a redação de documentos oficiais uma delas.
Procuramos contextualizar a
questão da enunciação na comunicação oficial. Partimos do princípio que a
teoria da enunciação teve como precursor Bakhtin (1992), quando concebe a
língua como um produto sócio-histórico, como forma de interação social
realizada por meio de proposições, e a linguagem é vista como ação e não um
mero instrumento de comunicação. Bakhtin chama a atenção para o fato de que a
verdadeira substância da língua não é
constituída por um sistema abstrato de formas lingüísticas, mas pelo fenômeno
social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações:
“a interação verbal constitui, assim, a realidade fundamental da língua'' . O autor
lembra ainda que a enunciação é de natureza social e argumenta que toda
a palavra comporta duas faces, sendo determinada tanto pelo fato de que procede
de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém. Nesse sentido,
constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte, isto é,
toda a palavra serve de expressão de um em relação ao outro.
Bakhtin (1992) instaura o
dialogismo como princípio constitutivo da linguagem e condição de sentido do
discurso: ``A língua constitui um processo de evolução ininterrupto, que se
realiza através da interação verbal dos locutores'' . O outro está sempre
presente nas formulações do autor e tem tanto a função de quem recebe como
também de quem permite ao locutor perceber o seu próprio enunciado. Os outros não são ouvintes passivos, mas participantes
ativos da comunicação verbal. Logo de início, o locutor espera deles uma
resposta, uma compreensão responsiva ativa e o elabora para ir ao encontro
dessa resposta. O índice substancial, constitutivo do enunciado é o fato de
dirigir-se a alguém e voltar-se para o destinatário, segundo o autor. O interlocutor é constitutivo do próprio ato de
produção da linguagem; é co-enunciador do texto e não um mero decodificador de
mensagens, desempenhando papel fundamental na constituição do significado e na
produção.
Bakhtin (1992) definiu
gêneros como “tipos relativamente estáveis de enunciados” . Para o autor, os
diversos gêneros constituídos na sociedade são, apesar da sua relativa
estabilidade, estruturados em torno de três aspectos caracterizadores dos
gêneros em geral: a seleção de temas (conteúdo); a escolha dos recursos
lingüísticos (estilo); e as formas de organização textual (construção
composicional). Além disso, Bakhtin admite que há gêneros mais “padronizados e
estereotipados” e gêneros “mais maleáveis, mais plásticos e mais
criativos” . O gênero ofício encontra-se no que Bakhtin
chamou de gêneros mais “padronizados e estereotipados”.
Isso significa que há gêneros
produzidos em situações muito formais e que seguem convenções mais rigorosas de
produção como as seguidas na comunicação oficial que várias comunidades
lingüísticas desenvolvem para uso diário, constituindo mais um modelo social,
já que ao mencionarmos ofício numa dada instituição todos indivíduos que ali estão identificarão um contorno
característico de interagir entre
pessoas ou outros órgãos. A partir dessa visão, ele começa a se voltar para o
conceito de gênero, pois acredita que o conhecimento do gênero, do qual depende
de conhecimentos além daqueles
relevantes ao próprio texto, é uma ferramenta primordial para quem
trabalha com textos no ambiente escolar ou profissional.
Um ponto interessante de
união do gênero ao seu envolvimento social é que não se pode tratar o gênero de
discurso independentemente de sua realidade social e de sua relação com as
atividades humanas, já que é a partir da questão relativa à inserção de
variedade de seqüências tipológicas nas comunicações oficiais em que predominam
descrições e exposições, é que poderemos localizar um dado gênero textual num
contexto situacional. (Bhatia, 1994).
Inspirado em vários campos de
estudo, Swales (1990) também formula a sua própria definição de gênero: “O
gênero é constituído de uma classe de eventos comunicativos, cujos membros
compartilham um conjunto de propósitos comunicativos” (Swales 1990). Nessa
concepção de gênero, o primeiro elemento que o caracteriza é a idéia de classe.
O reconhecimento de um gênero inclui a análise do contexto de uso, ou seja, o
reconhecimento de onde e quando o gênero é praticado; a identificação dos
interlocutores, isto é, as intenções e propósitos do emissor e a quem pode se
destinar um dado gênero; a escolha da forma mais adequada de codificar
lingüisticamente as informações; a análise de características textuais e lingüísticas
que são típicas de cada gênero.
Para Swales (1990), a
seqüência textual corresponde à constituição estrutural interna do texto, e
este pode apresentar na sua estrutura várias seqüências ou tipos textuais como
a narração, a descrição, a dissertação ou argumentação e a injunção. No
ofício, esses tipos se alternam, já que
há a descrição, o detalhamento de processos, há narração de fatos e
argumentação necessária ao realizar de determinados trabalhos. Mesmo a injunção
aparece como uma seqüência ou tipo textual em que se incita a realização de uma
ação por parte do interlocutor, orientando-o e aconselhando-o como fazer a
ação.
Comunidade discursiva é
constituída, para Swales (1990), de
pessoas que se agrupam em torno de propósitos comunicativos comuns e que usam
determinados gêneros textuais para alcançar esses propósitos.
São exemplos de comunidades
dessas discursivas professores e alunos,
comerciantes, funcionários públicos entre outras. Os interlocutores são
os participantes da ação comunicativa, que interagem na conversação face-a-face
ou através do texto escrito. São o falante e o ouvinte, ou o escritor e o
leitor. Como contextos sócio interacionais Swales (1990) diz que são situações
de uso da linguagem verbal em que as pessoas participam cotidianamente com os mais variados
propósitos, no ambiente profissional, nas instituições públicas e
privadas.
As definições são muito mais
operacionais do que formais. Assim, neste estudo, para a noção de tipo textual predomina a identificação de sequências lingüísticas como norteadora; e para a noção
de gênero textual predominam os
critérios de padrões comunicativos, ações, propósitos e inserção
sócio-histórica. No caso dos domínios discursivos não lidamos propriamente com
textos e sim com formações históricas e
sociais que originam os discursos.
Como ponto de partida, consideramos os
gêneros não são entidades formais, mas sim entidades comunicativas em
que predominam os aspectos relativos a funções, propósitos, ações e conteúdos.
Neste sentido, pode-se dizer que a tipicidade de um gênero vem de suas
características funcionais e organização retórica, como formas verbais de ação
social estabilizadas e recorrentes em textos situados em comunidades de
práticas em domínios discursivos específicos. Assim os gêneros se tornam propriedades inalienáveis
dos textos empíricos e servem de guia para os interlocutores, dando
inteligibilidade às ações retóricas. (MARCHUSI, 2002).
3. Características formais e lingüísticas
Bronckart (1999) afirma que qualquer espécie
de texto pode ser designada em termos de gênero e que, portanto, todo exemplar
de texto observável pode ser considerado como pertencente a um determinado
gênero. Para ele, todo texto se organiza em forma de uma ação social.
Para identificar ou compreender
melhor o gênero ofício é necessário visualizar que ele é um tipo de texto que se caracteriza por exercer uma função social específica. Estas funções
sociais embora sejam “pressentidas” e vivenciadas quase sempre não são de fácil
explicitação, pela possibilidade de mudanças e usos influenciados pelo emprego
que exercem. Encontra-se vinculado ao
conceito de que correspondência é um
gênero identificável pela função social de permitir a troca de informações
entre pessoas e/ou instituições e a interação por meio de um veículo específico
que sobrepuja limitações de tempo e espaço, proposto por Travaglia, 1992.
O ofício é um texto proveniente de uma autoridade; é
um instrumento do comunicação do serviço público, portanto de autoridade a
autoridade ou desta para outra. Consiste em qualquer comunicação de assunto de
ordem administrativa ou estabelecimento de uma ordem. Ocorre
nas relações oficiais e nas
comunicações do serviço público; entre órgãos públicos ou destes para
particulares. Os atos de fala são constituídos por verbos
performativos: encaminhamos; solicitamos; pedimos e outros. Apresenta
caráter público e só deve ser expedido por órgão da administração pública.
Neste estudo, a principal
finalidade foi analisar ofícios emitidos por um setor público no município de
Uberaba-MG, levando em consideração a linguagem, o formato e as normas
pré-definidas pelo Manual da Presidência da República (2002)..
Objetivou-se conhecer na
prática a elaboração de uma correspondência oficial dentro de um órgão público
municipal e então, detectar verificar
o emprego dos padrões de linguagem, forma, estrutura e padronização, em
especial do documento ofício. Os princípios seguidos foram a normatização desse
tipo de correspondência preconizados pelo Manual da Presidência da República,
confrontando-os com os demais autores da referência bibliográfica, tendo sempre
em mente que “redação oficial é a maneira pela qual o Poder Público redige atos
normativos e comunicações”. E ainda que “A redação oficial deve caracterizar-se
pela impessoalidade, uso do padrão culto
de linguagem, clareza, concisão, formalidade e uniformidade.
Fundamentalmente esses
atributos decorrem da Constituição, que dispõe, no artigo 37: ‘A administração
pública direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência ...’. (Manual
da Presidência da República, p. 4). Na realidade, consoante com Bhatia (1993)
“todo gênero é uma instância de uma bem sucedida comunicação usando
conhecimento de base lingüística e discursiva convencionalizada.”
Partimos do conceito de que
“Redação oficial é o meio pelo qual se procura estabelecer relações de serviço
na administração pública.” (Medeiros
2000:249). E que “ofício é texto proveniente de uma autoridade, que consiste em
comunicação de qualquer assunto de ordem administrativa, ou estabelecimento de
uma ordem;...apresentar caráter público
e só pode ser expedido por órgão da
administração pública, como uma secretaria, um ministério, uma prefeitura e
outros. O destinatário pode ser órgão público ou um cidadão particular.”
(Medeiros 2000:315)
Encontramos ainda que
“correspondência oficial é o conjunto de normas regedoras das comunicações
escritas, internas e externas, das repartições públicas”(Beltrão e Beltrão
2004:79), o que equivale dizer que estabelece uma relação sócio-histórica com
fontes de produção que lhe dão sustentação além da justificativa individual.
O ofício segue algumas normas
que podem ser conferidas no Manual de redação da Presidência da República
(2002, p. 5), como a necessidade de
empregar determinado nível de linguagem nos atos e expedientes oficiais que
decorre, de um lado, do próprio caráter público desses atos e comunicações; de
outro, de sua finalidade, pois tais comunicações, em sua maioria, informam
regras normas, ou assuntos que são de
interesse para os cidadãos, relacionados diretamente aos seus direitos. Uma
comunicação eficaz só é alcançada se em sua elaboração for empregada a
linguagem adequada, mantendo a sua função intrínseca, que é a de informar com
clareza e objetividade. Para tanto, as comunicações que partem dos órgãos
públicos devem ser compreendidas por todo e qualquer cidadão. Para atingir esse
objetivo, deve-se evitar o uso de uma linguagem restrita a determinados grupos,
pois um texto marcado por expressões de circulação restrita, como gírias, os
regionalismos vocabulares ou o jargão técnico, tem sua compreensão dificultada.
É preciso sempre lembrar que
a língua escrita tem maior vocação para permanência, e vale-se apenas de si
mesma para comunicar.
A redação oficial é
apresentada como “maneira pela qual o Poder Público redige atos normativos e
comunicações." (Manual de Redação da
Presidência da República, 2002, p. 4). Esse conceito pode ser ampliado
ao se ver a escrita oficial como um meio
de se estabelecer relações no Poder Público e para isso, é necessário que se estabeleçam regras e
normas que irão reger tais relações, consoante com Beltrão (2004) que vê a correspondência oficial como
"o conjunto de normas regedoras das comunicações escritas, internas e
externas, de repartições públicas."
Na mesma obra, o autor afirma
que quanto a natureza a correspondência pode classificar-se como:
a) secreta: documentos ou informações que
exijam absoluto sigilo; b) confidencial: informações de caráter pessoal ou
assunto cujo conhecimento deve ficar o mais restrito possível; c) reservada:
cujo resguardo seja restrito ou transitório;
d) ostensiva ou ordinária:
não está presente nas classes anteriores e cuja divulgação não prejudica a
administração pública.
Beltrão (2004) ainda propõe
outra maneira abrangente de classificar a correspondência:
a) quanto a natureza: normal
e urgente;
b) quanto ao caráter:
ordinária, reservada, confidencial;
c) quanto a via de
transmissão: comum, aérea, telegráfica, por rádio, por fax;
d) quanto a espécie: ato
normativo (decreto, portaria, instrução, ordem de serviço e outros),
correspondência externa, correspondência interna e interdepartamental.
A correspondência oficial
está regulamentada, no território nacional, por diversos atos, datados desde o
período imperial, um deles é a Instrução
Normativa nº. 133, de 02-03-1982, do Departamento Administrativo
do Serviço Público - DASP. Em 1991, a Presidência da República criou uma
comissão com o intuito de uniformizar e simplificar as normas de redação de
atos e comunicações oficiais.
Então, a partir do trabalho dessa comissão, em
1992, foi elaborado o Manual de Redação da
Presidência da República; e a partir daí surgiu a Instrução Normativa
nº. 4, de 6 de Março de 1992. Beltrão (2004)
coloca que "nos estados e municípios a estrutura é mais ou menos a
mesma, bem como nas repartições públicas ou órgãos componentes dos poderes
legislativo e judiciário."
Por outro lado, redação
oficial, segundo Medeiros (2000), "é o meio pelo qual se procura
estabelecer ralações de serviço na administração pública." Medeiros
diz ainda que: A redação oficial tem como objetivo racionalizar o trabalho e diminuir o
custo. Por isso, procura disciplinar o uso de expressões e fórmulas,
aconselhando determinados fechos em lugar de outros que se apresentam
demasiadamente prolixos e melosos.
Medeiros (1999), também
considera a correspondência oficial como uma redação técnica, devido à preocupação com a objetividade e a precisão
da comunicação. Para ele a linguagem desse tipo de redação deve assumir um
caráter pragmático, utilitário, o que confere com os dizeres de Marchusi (2002)
“já se tornou um consenso que o trabalho com os gêneros no ensino de língua é
relevante, de modo particular em relação
à produção textual. Tudo indica que com base nos gêneros pode-se desenvolver um
trabalho de produção textual com materiais que efetivamente circulam na
sociedade.”
Entendemos que a construção
de uma comunicação oficial não se reduz a uma mera técnica, a simples
mobilização de regras e normas fornecidas pelos manuais de redação ou
aprendidas no desempenho da atividade profissional. É no
interior do próprio processo discursivo, por meio de múltiplas operações
articuladas pelos processos da própria linguagem, que a mensagem é construída
antecipadamente, como diz Marchusi (2002): “na formulação de um gênero há
aspectos estilísticos, estruturais, sintáticos e escolhas léxicas bastante
claras ... desde que tenhamos uma experiência social anterior sobre eles, não
será difícil reproduzi-los, o que permite postular que a formulação textual é
relativamente formulaica ou até mesmo estereotípica.”
Não se pode, contudo, confundir simplicidade com pobreza de
expressão ao se redigir uma redação oficial.
Certas palavras e expressões aparecerão com certa freqüência, todavia, os jargões burocráticos, assim como qualquer
jargão, devem ser evitados, pois possuem uma compreensão limitada. Com isso,
"não existe propriamente um padrão oficial de linguagem; o que há é o uso
do padrão culto nos atos e comunicações oficiais." (Manual de Redação da
Presidência da República, 2002, P. 5).
Ora, os gêneros como entidades concretas
empiricamente realizadas, apresentam-se
com forma e conteúdos próprios e situam-se
em contextos de uso localizados definidos por comunidades lingüísticas
com práticas sociais e normas comuns. (Marchusi, 2002)
Ao redigir uma comunicação
oficial é preciso considerar a formalidade e a padronização. A formalidade não
se destina apenas ao cuidado com o uso dos pronomes de tratamento, diz respeito
também, à delicadeza e à cortesia no emprego das palavras, enquanto a
padronização estabelece características da redação e da apresentação dos textos
que irão uniformizar as comunicações oficiais.
Impessoalidade decorre da
ausência de impressões individuais do emissor, do receptor e, ainda do caráter
impessoal do assunto tratado na mensagem. Para Ferreira (1999), impessoal é o
que não se refere ou não se dirige a uma pessoa em particular, mas às pessoas
em geral. "A redação oficial deve ser isenta da interferência; da
individualidade que a elabora."
A impessoalidade depende de
elementos como a concisão, a clareza e a objetividade. Adjetivação, palavras
supérfluas, repetição de termos e idéias comprometem a concisão de um texto; o
princípio é pautar-se pela economia lingüística. De acordo com o Manual de
Redação da Presidência da República (2002, p. 6), " conciso é o texto que
consegue transmitir um máximo de informações com um mínimo de palavras."
De outro lado, a clareza,
característica de um texto, diretamente ligada ao código, possibilita imediata
compreensão da mensagem pelo leitor.
Medeiros (1999) mos t r a clareza
como a expressão exata do
pensamento. É imprescindível valer-se de alguns cuidados especiais, como
escolher bem as palavras a serem empregadas, evitar adjetivos, advérbios e
períodos muito longos; desenvolver o raciocínio passo a passo, ligar
adequadamente as idéias e optar por uma linguagem usual. Por outro lado,
atualmente, cada dia mais os indivíduos tornam-se igualmente seletivos quanto
ao número e tamanho das informações que chegam até eles.
Segundo Medeiros (1999),
"para escrever bem, é preciso escrever apenas as palavras necessárias;
encerrar um pensamento com o menor número de palavras possível."
Destaca-se ainda, a
necessidade de qualidades como a
correção e a harmonia. A correção refere-se a obediência à gramática e está
intimamente ligada ao estudo da sintaxe, concordância, regência verbal e
nominal, colocação pronominal e colocação dos termos na oração. Enquanto a
harmonia trata, de acordo com do ajustamento eufônico das palavras na frase e
das frases no conjunto. Medeiros (1999, p. 97) ressalta que a harmonia "é
o resultado de um encadeamento de sons que provém da escolha inteligente das
palavras e da distribuição dos termos na oração." Para ele, o uso de
frases diretas e o cuidado com efeitos como a cacofonia, o eco e o hiato são medidas eficazes contra a
ausência de harmonia.
A necessidade de empregar
determinado nível de linguagem nos atos e expedientes oficiais decorre, de um
lado, do próprio caráter público desses atos e comunicações; de outro, de sua
finalidade, pois os ofícios em sua maioria, informam regras ou normas, ou
assuntos que são de interesse para os cidadãos relacionados diretamente aos
seus direitos. Para tanto, as comunicações que partem dos órgãos públicos devem ser compreendidas por todo e qualquer
cidadão. Para atingir esse objetivo, é
preciso considerar perspectivas sócio-comunicativas.
Os textos oficiais, por seu
caráter impessoal, por sua finalidade de informar com o máximo de clareza e
concisão requerem o uso do padrão culto da língua. Há consenso de que o padrão
culto é aquele em que:
a) se observam as regras da gramática formal,
e
b) se emprega um vocabulário
comum ao conjunto dos usuários do idioma. É importante ressaltar que a
obrigatoriedade do uso do padrão culto na redação oficial decorre do fato de
que ele está acima das diferenças
lexicais, morfológicas ou sintáticas regionais, dos modismos
vocabulares, das idiossincrasias lingüísticas, permitindo, por essa razão, que
se atinja a pretendida compreensão por todos os cidadãos. (Manual da
Presidência da República, 2002, p. 5)
O Manual ressalta ainda, que
não existe propriamente um “padrão oficial de linguagem”; o que há é o uso do
padrão culto nos atos e comunicações oficiais, devendo-se preferir o uso de
determinadas expressões, ou o emprego das formas sintáticas, mas isso não
implica, necessariamente, que se consagre a utilização de uma forma de
linguagem burocrática. O padrão culto
nada tem contra a simplicidade de expressão e de nenhuma forma, o uso do padrão
culto implica emprego de linguagem rebuscada, nem o uso sintático diversificado
ou de figuras de linguagem próprias da língua literária. Assim, como diz
Marchusi (2002) “os textos seguem algumas máximas comunicativas de formulação, muitas vezes tratadas como ‘traços
estilísticos’ dos textos e entre os
conhecimentos exigidos dos produtores de texto estão aquelesconhecimentos de
formas/fórmulas rotineiras que caracterizam os gêneros.
Considerando essas
colocações, procuramos considerar a cultura e os costumes locais, pois eles
influenciam diretamente na linguagem e, principalmente nos pronomes de
tratamento utilizados na confecção de uma correspondência, seja ela pessoal,
comercial ou mesmo oficial. Tal fato independe de regras ou padrões, pois homem
e meio estão em constante interação e ambos influenciam de forma direta e
indireta um ao outro, com uma forma
particular de se comunicar e usar os pronomes de tratamento. Este fato pode ser
justificado pela diversidade cultural e pelo grau de escolaridade de cada localidade.
No corpus coletado para
estudo é comum verificar e identificar expressões de uso corrente como: “A
Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais estará procedendo...” “...solicitando a valiosa colaboração...” “estamos enviando;
estamos aguardando; estaremos enviando.”, o que denota uso comum do gerúndio, e
outras formas estereotipadas.
A designação ofício como um gênero escrito possui
características típicas de uma
correspondência, de uma carta, cuja representação adquire ora a forma de monólogo
ora de diálogo e se distingue de outros tipos de mensagens devido a
características bastante peculiares de sua forma e conteúdo. A forma textual tem marcas lingüísticas mais
ou menos identificáveis desde o início é o caso de “prezados senhores” e outras
marcas bastante conhecidas que podem ser facilmente identificáveis. Constituem
fórmulas históricas, surgidas ao longo do tempo e das práticas sociais e têm
suas características específicas tanto na fala quanto na escrita. Pode-se afirmar que é um modelo comunicativo
e operam preparando o caminho para a compreensão e para uma determinada reação,
como na visão sócio-interacionista que
considera o enunciado(concreto e único) é a forma de utilização da
língua que emana da atividade humana, refletindo as condições e as
finalidades dessa atividade por meio de
três elementos: a seleção de temas (conteúdo); a escolha dos recursos
lingüísticos – lexicais, fraseológicos e gramaticais -
(estilo); e as formas de organização textual (construção composicional),
como diz Bakhtin (2000).
Os seguintes aspectos –
autor, leitor, comunidade discursiva, tecnologia, contexto, texto, organização
retórica, léxico e normas de interação
– ganham características especiais quando se trata desse gênero. O autor, ou
produtor do ofício, pode ser uma pessoa
ou instituição com contatos esporádicos, devido a determinado fato, que
uma vez resolvido encerra-se o contato, ou permanentes (coordenador, subordinado, políticos,
oficiais públicos, funcionários, instituições privadas ou públicas e outros)
que interage com outros usuários com objetivos semelhantes, através da mediação
de um meio escrito. Os desempenhos dos
interlocutores estão condicionados,
entre outros fatores, ao seu letramento, idade, cultura, classe social, status,
e gênero (masculino/feminino), muitas vezes exige a interpretação de outros,
como no caso dos ofícios jurídicos.
Os usuários formam uma
comunidade discursiva que pressupõe uma competência comunicativa compartilhada,
objetivos comuns – transmitir
instruções, mensagens, orientações para determinados procedimentos e
outros . A competência comunicativa
implica as competências pragmática, tecnológica e intercultural, além da
obediência a determinadas normas, uma vez que o ofício, dos textos escritos é que o mais exige a
obediência das fórmulas de aberturas e fechamentos, além de certas limitações
tanto contextuais quanto estruturais
também semelhantes, mas com a possibilidade de colocar em contato
pessoas que se encontram geograficamente distantes.
Ofício é uma modalidades de
comunicação expedido para e pelas autoridades institucionais com a finalidade
do tratamento de assuntos oficiais pelos órgãos públicos entre si com
particulares. Quanto a forma, segue o modelo padrão ofício, com uso do vocativo,
que invoca o destinatário, seguido de vírgula ou de dois pontos. O papel deve
ser timbrado.
Na primeira linha, deve haver
o preenchimento do campo com o tipo e número do expediente, seguido da sigla do
órgão que o expede, como exemplo : Of. 123/2002-MME; em seguida b) local e data
em que foi assinado, por extenso, com alinhamento à direita;. c) assunto:
resumo do teor do documento. Exemplos:
Assunto: Necessidade de
aquisição de novos computadores. d) destinatário: o nome e o cargo da pessoa a
quem é dirigida a comunicação. No caso do ofício deve ser incluído também o
endereço.; e) texto: nos casos em que não for de mero encaminhamento de
documentos, o expediente deve conter a seguinte estrutura: – introdução,
desenvolvimento, no qual o assunto é detalhado; se o texto contiver mais de uma
idéia sobre o assunto, elas devem ser tratadas em parágrafos distintos, o que
confere maior clareza à exposição; –
conclusão, em que é reafirmada ou simplesmente reapresentada a posição
recomendada sobre o assunto. Os parágrafos do texto devem ser numerados.; f)
fecho; g) assinatura do autor da comunicação; e h) identificação desse
signatário.
As formas de diagramação
também são rígidas e devem obedecer à seguinte forma de apresentação: a) deve
ser utilizada fonte do tipo Times New Roman de corpo 12 no texto em geral, 11
nas citações, e 10 nas notas de rodapé; b) para símbolos não existentes na
fonte Times New Roman poder-se-ão utilizar as fontes Symbol e Wingdings; c) é
obrigatório constar, a partir da segunda página, o número da página; d) os
ofícios poderão ser impressos em ambas as faces do papel. Neste caso, as
margens esquerda e direta terão as distâncias invertidas nas páginas pares
(“margem espelho”); e) o início de cada parágrafo do texto deve ter 2,5 cm de
distância da margem esquerda; f) o campo destinado à margem lateral esquerda
terá, no mínimo, 3,0 cm de largura; g) o
campo destinado à margem lateral direita terá 1,5 cm; h) deve ser utilizado
espaçamento simples entre as linhas e de 6 pontos após cada parágrafo, ou, se o
editor de texto utilizado não comportar tal recurso, de uma linha em branco; i)
não deve haver abuso no uso de negrito, itálico, sublinhado, letras maiúsculas,
sombreado, sombra, relevo, bordas ou qualquer outra forma de formatação que
afete a elegância e a sobriedade do documento; j) a impressão dos textos deve
ser feita na cor preta em papel branco. A impressão colorida deve ser usada
apenas para gráficos e ilustrações; l) todos os tipos de documentos do Padrão
Ofício devem ser impressos em papel de tamanho A-4, ou seja, 29,7 x 21,0 cm; m)
deve ser utilizado, preferencialmente, o formato de arquivo Rich Text nos
documentos de texto; n) dentro do possível, todos os documentos elaborados
devem ter o arquivo de texto preservado para consulta posterior ou
aproveitamento de trechos para casos análogos; o) para facilitar a localização,
os nomes dos arquivos devem ser formados da seguinte maneira: tipo do documento + número do documento +
palavras-chaves do conteúdo. Ex.: “Of. 123 - relatório produtividade ano 2002”
3.1 Aberturas e fechamentos
As aberturas
devem conter pronomes de tratamento adequados, cujo emprego obedece a
secular tradição. São de uso consagrado:
Vossa Excelência, para Chefes de Poder, com uso do vocativo a ser empregado em comunicações
“Excelentíssimo Senhor”, seguido do cargo respectivo, exemplo: Excelentíssimo
Senhor Presidente da República. As demais autoridades serão tratadas com o
vocativo Senhor, seguido do cargo respectivo: Senhor Senador. Vossa Senhoria é empregado para as demais autoridades e para
particulares. O vocativo adequado é: Senhor Fulano de Tal. O fecho das
comunicações oficiais possui, além da finalidade óbvia de arrematar o texto, a
de saudar o destinatário. Com o fito de simplificá-lo e uniformizá-lo, o Manual
da Presidência da República (2002) estabelece o emprego de somente dois
fechos diferentes para todas as modalidades de comunicação oficial:
a) para autoridades
superiores, inclusive o Presidente da República: Respeitosamente, b) para
autoridades de mesma hierarquia ou de hierarquia inferior: Atenciosamente. Ficam excluídas dessa fórmula as comunicações
dirigidas a autoridades estrangeiras, que atendem a rito e tradição próprios,
devidamente disciplinados no Manual de Redação
do Ministério das Relações Exteriores.
Excluídas as comunicações assinadas pelo Presidente da República, todas
as demais comunicações oficiais devem trazer o nome e o cargo da autoridade que
as expede, abaixo do local de sua assinatura.
No processo de coleta
e seleção de normas lingüísticas, no estágio de desenvolvimento atual, o
corpus está sendo ampliado com informações contextual, mas já pode ser
observado que exemplos com sentido específico, normas e outros aspectos são
evocados pela comunidade lingüística em estudo, ou seja, são reconhecidas pelos usuários da
língua como objetos de interação, ou no
dizer de Marcuschi (2002) “como
fenômenos históricos, profundamente vinculados à vida cultural e social” e
acrescenta: “os gêneros contribuem para ordenar e estabilizar as atividades
comunicativas do dia-a-dia”. Além disso,
o autor ressalta que os gêneros surgem, proliferam-se e modificam-se para
atender a necessidades socioculturais e às inovações tecnológicas.
4. Considerações
Neste estudo tentamos analisar um gênero
epistolar denominado ofício, tecendo algumas investigações em suas formas
estruturais e organização dos componentes lingüísticos e
comunicativos que compõe esse gênero textual constituído
socialmente.
A interação entre os usuários
do ofício é uma atividade de linguagem que se constrói globalmente e que exige
bastante colaboração e cooperação devido à ausência de elementos típicos do
contexto face a face (ex. mecanismos de seleção do falante).
Os mecanismos para
compreensão da mensagem exigem uma competência comunicativa compartilhada,
objetivos comuns para a produção de
sentido, o que confere, naquela comunidade discursiva, alguns direitos, tais
como os de selecionar falantes e propor tópicos. O enunciados é típico e parte
da coerência é construída pela concisão e clareza do enunciados proposto pelo
interlocutor e parte pelo contexto que deve provocar a resposta (feedback). O
enunciador deve escrever apenas o que é relevante para obter um conjunto de
saberes e conhecimentos, sistemas de representação/avaliação do discurso
produzido no qual o locutor dá como
partilhado com o alocutário um ato concreto de interação discursiva, no qual
descreve relações semânticas orientadas
e constitutivas da
comunicação escrita, conjunto alargado de outros enunciados verbais, e reflexo dessa inserção,
no ambiente profissional, que procura
satisfazer as expectativas/previsões que o locutor faz sobre a interpretação
tecida pelo alocutário.
O gênero ofício exige do
redator muita perspicácia. Cabe a ele organizar as idéias antes de começar a
redigir para não deixar transparecer a idéia de que cabe ao leitor a tarefa de
descobrir a mensagem que deseja transmitir, já que a eficácia de uma
comunicação depende de o receptor decodificar a mensagem e emitir a resposta esperada
pelo emitente.
Por isso, sendo a
correspondência uma forma de comunicação escrita em que se estabelece
entrepessoas – sejam elas físicas ou jurídicas – relações para tratar de
assuntos de mútuo interesse é preciso que aspectos essenciais como originalidade,
estilo, coerência, clareza, sejam considerados e utilizados na elaboração de
uma correspondência – comercial ou oficial. Enfim, elas têm como finalidade esclarecer
assuntos diversos, convencendo com objetividade e denotação.
Foram abertas discussões
sobre o tema e, cabe a buscar por mais dados e informações que contribuam ainda
mais para a confirmação e concretização de que o conhecimento das
características essenciais à redação oficial é imprescindível no contexto
profissional, quer o indivíduo atue ou não em um órgão público.
O conhecimento dos mais
diversos gêneros deve ser explorado no exercício de reconhecimento das suas
características, na explicitação dos aspectos que caracterizam um gênero e que
o diferenciam de outro, para facilitar o estudo reflexivo, metalingüístico,
sobre cada gênero para que o usuário
possa fazer uso de tais propriedades com eficiência nas situações em que
tiverem necessidade de usá-los.
O trabalho de apropriação das
características de um gênero precisa partir de um exercício de reconhecimento
desse gênero nos seguintes aspectos: em que meio social ou comunidade
discursiva ele é praticado; quais as convenções ou as regras de uso que estão
estabelecidas nessa comunidade; quais as características formais e lingüísticas
que podem ser identificadas nos textos que representam esse gênero; qual o
papel dos interlocutores (falante/escritor e ouvinte/leitor) nas ações sociais
em que o gênero é praticado; quais os propósitos comunicativos que podem ser
alcançados através dele; em que meio físico (veículo ou suporte) ele é
veiculado.
O conhecimento dos gêneros
textuais através da análise cuidadosa e recorrente precisa anteceder qualquer
atividade de produção de um gênero, seja na modalidade ofício ou outra
qualquer.
O gênero ofício é um sistema
discursivo complexo e, podemos dizer que transformações mediadas por
comunidades têm objetivos públicos comuns
e mecanismos de intercomunicação, fornecendo informação e feedback
através de correspondências esporádicas ou contínuas e gerando léxico específico. Alguns exemplos
do léxico específico gerado a partir do gênero
ofício são: procedimento, entidade e outras expressões
rotineiras na redação de comunicações oficiais que foram incorporadas ao longo
do tempo, como as formas de tratamento e de cortesia, certos clichês de
redação, a estrutura dos expedientes e muitos outros acrônimos que foram
gerados pela necessidade de agilidade nesse tipo de produção textual e que também significa a expansão e a imposição,
até certo ponto de forma inconsciente, dos valores de uma cultura.
O gênero em estudo tem
exercido forte influência nas relações humanas: no exercício da cidadania, na
vida cotidiana, e na educação. Além disso, o ofício é um gênero que embora
muito usado é pouco estudado e mantém-se atrelado à visão histórica; a modelos
de formulação com os mesmos elementos
desde sua implantação foram herdados, e
ainda sobrevivem, ora preservados intactos nas inúmeras comunicações
institucionais, ora decompostos e recompostos em inúmeros e diferentes níveis,
mas todos a serviço da intenção comunicativa de um falante que a eles recorre
como se recorre a uma ferramenta de trabalho, usando conhecimento de base
lingüística e discursiva convencionalizada.
O gênero analisado também não
se vincula necessariamente a nenhum dos quatro tipos definidos pela perspectiva
do produtor em relação ao objeto do dizer quanto ao saber/conhecer ou ao
fazer/acontecer e sua inserção no tempo e espaço (descrição, dissertação,
injunção, narração), pois podemos ter correspondências oficiais totalmente
compostas por um desses tipos ou pela conjugação de dois ou mais deles.
O ofício é amplamente utilizado nas relações oficiais
e até mesmo comerciais sem nenhuma vinculação ou explicitação mais detalhada e
merece ser mais estudado. Como todo sistema complexo, o gênero é um sistema
aberto e outras possibilidades de
gerenciamento; de produção de texto ou
novas mudanças no comportamento discursivo poderão acontecer.
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